segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Outros Estudos em Vermelho e Azul... (Parte 4)


- A senhora sabe porque está aqui?

A mulher, com aspecto um tanto lívido, sentada à frente do homem de branco, balançou a cabeça, positivamente.

- Teve uma síncope: uma forma de ataque de pânico, ocasionado pelo excesso de trabalho, provavelmente compulsivo. A senhora tem trabalhado demais, não tem? Provavelmente não se alimenta, nem dorme direito… A senhora sabe as consequências disso?

O médico de plantão já conhecia o diagnóstico, sem precisar fazer mais que uns simples exames à paciente à sua frente. Os sintomas eram evidentes demais, para quem já estava acostumado a ver, repetidamente, as pessoas terem comportamentos indecentemente obsessivos em relação ao trabalho.

- Sei, mais ou menos… mas o ‘SENHOR’ (ela usou uma dose de ironia ao pronunciar a palavra, fazendo uma pausa quase imperceptível) vai dizer-me de todo o jeito, não vai?

O médico fingiu não perceber o sarcasmo e disparou:

- Se não procurar ajuda profissional especializada, imediatamente, vai ter que voltar aqui e com certeza será muito pior… Além de alguns exames médicos e um acinético, vou-lhe passar o nome de uma óptima psicóloga, mas a senhora vai ter que se comprometer, sem desculpas, a seguir a terapia à risca…

(Se ele me chamar de ‘senhora’ mais uma vez, juro que, no mínimo, furo-lhe os olhos!!!)

- Ok, doutor. Eu vou seguir suas instruções à risca… Prometo!

- Já falei com seu superior e ele concorda comigo. A senhora VAI seguir a terapia à risca.

(Aaarrrghh!!! Agora ele pediu. E ainda teve a audácia de colocar a ênfase no verbo… Vou-lhe directo ao pescoço… sem dúvida alguma! Alguém me segure, senão ele não me escapa das unhas…)

Levantou-se, estendeu-lhe a mão, com educação fingida e, com um sorriso forçado, virou-se e saiu pela porta afora, com a prescrição médica de um forte calmante dentro do bolso da calça…

***

Um rapaz com profundos olhos azuis entrou no Café. Avistou a mulher sentada, sozinha, à janela e aproximou-se.

-‘Posso sentar-me aqui?’

Ela olhou-o, visivelmente pasmada ante a ousadia do rapaz que acabara de chegar. Ele acomodou-se, antes mesmo que ela tivesse tempo de responder. Sua acção não passou despercebida de todo. Ele observou com cuidado o ambiente e o desconforto dela. Viu também que um dos atendentes de mesas que estava de pé, próximo ao balcão do Café, não tirava os olhos de cima deles. Uma veia perversa inundou-se o sangue com sede de vingança, mas ele soube permanecer impassível. Precisava de mais certeza. 

Chamou o rapaz para pedir um café, mas com um intuito bem mais específico. Percebeu o nervosismo de ambos. Suas dúvidas dissiparam-se, imediatamente, assim que viu a troca de olhares entre os dois. Misha sorriu-lhe e seu sorriso foi o mais encantador que ele conseguiu produzir. Ela retribuiu, meio desajeitadamente, sem saber exactamente o que fazer. O rapaz, que os servia, franziu o cenho.

(Bingo!)

 A semente da dúvida havia sido plantada. Agora era somente uma questão de tempo… e, este, ele tinha à sua inteira disposição… e mais que de sobra. Misha não precisou, entretanto, de um segundo assédio.

Naquela noite, quando estavam juntos, após amarem-se como dois náufragos desesperados, em busca de uma tábua de salvação, enquanto o calor arrefecia seus corpos, o rapaz rolou para o lado e ficou, em silêncio, a olhar o teto. Ela percebeu que ficou um clima algo estranho a pairar no ar.  Mesmo assim, falou, com cuidado:

- Eu gosto tanto de estar aqui…

Mas o rapaz parecia estar muitas milhas distante dela. Uma lágrima de tristeza rolou-lhe pelo lado da face, quando ele deu um longo e angustiado suspiro…

***

Misha passou a observar, de perto, os passos da mulher. Viu que suas idas ao Café da esquina cessaram após aquela ocasião em que esteve presente. Certificou-se, primeiro, que estava certo, depois decidiu aproveitar-se da situação. Deixou passar um tempo e voltou ao Café, dirigindo-se ao funcionário de mesa que já conhecia.

Perguntou, como se fosse a coisa mais natural do mundo, como estava a namorada. Apesar das tentativas do rapaz em afirmar que não havia nada entre ele e a investigadora de polícia, o outro não pareceu convencido.

Após uns poucos minutos, Misha então, desafiou o rapaz. Apostou que conseguia levar a mulher para cama.

- Se não há nada entre vocês, não há porque se preocupar, não é mesmo?

-‘Por que estás fazendo isso?’

- ‘Para provar que as coisas não são o que aparentam ser’

O verdadeiro intuito, porém, estava longe de ser tão simples.

***

-Tenho percebido que andas muito sozinha. Cada vez que te vejo, tenho a impressão que estás mais triste. O menino deixou-te?

- Que menino?

- Achas que eu não sei o que se passa? Só porque não frequentas mais o ‘Templo’, não quer dizer que passas despercebida… Tu és uma mulher atraente, mesmo por trás desta fachada séria de policial durona. E eu sei que me achas interessante.

(‘E arrogante’ - pensou ela, fazendo um leve muxoxo…)

- Vejo o jeito que me olhas e sei que também me deves desejar...

- Se alguma vez te olhei com algum desejo, deve ter sido há muito tempo atrás. Essa atracção já não existe. Agora eu estou interessada em outro homem, muito diferente de ti.

- O menino do Café…

Ela meio que entristeceu. Ele riu, vitorioso.

Ela não negou, nem confirmou. A afirmação tinha um grande fundo de verdade. Estava-se apaixonando pelo outro rapaz, embora, naquela ocasião, estivessem separados, depois do incidente em que ele lhe pedira um tempo para pensar. Seus olhos encheram-se de lágrimas a recordar a estranheza do último encontro que tiveram. Já haviam-se passado vários dias…

Ele percebeu o estado dela e aproveitou-se da situação e fragilidade demonstrada no momento. Chegou-se mais perto, olhou-a nos olhos e sorriu. Ela não conseguiu desviar o olhar. Ele tocou-lhe, com delicadeza, a face morna e ela, em reacção, fechou os olhos…

***

Misha era um mestre na arte. Sabia todos os segredos da sedução, como preparar um ambiente sensual e conhecia os pontos sensíveis do corpo da mulher. Deu-lhe prazeres que ela não sabia que existiam, mesmo quando estava com seu jovem amante. Era evidente que ele era um profissional do ramo e sabia muito bem como agradar.

- Agora vais ter que mentir ao menino…

- Eu não minto; só não preciso falar toda a verdade… Nunca prometemos fidelidade, nem tampouco exclusividade, um ao outro…

Sabia, porém, que o que acabara de dizer não era bem uma verdade incontestável… e sentia muito que assim fosse.

Como se numa encenação bem ensaiada, o telefone dela tocou…

domingo, 11 de agosto de 2013

Um Frio Deserto


A grande onda de calor veio, de repente, como se fosse por mágica… ou por maldição. Para os mais desavisados, nem as lojas estavam preparadas para suprir a repentina demanda de ventoinhas ou aparelhos de ar condicionado.

Deitados no chão da sala, com as persianas baixas e as luzes apagadas, em frente à única ventoinha que havia sobrado na loja e que teria de servir, para o momento, ficamos quietos, lado a lado, como se soubéssemos que, qualquer movimento desnecessário, só nos iria trazer mais desconforto.

Havia, por sugestão da doutora, borrifado sua barriga e peito com água fria, para tentar refrescá-lo um pouco. Ele, assim como eu, já não sentia apetite algum… apenas sede; muita sede. 

Menos de uma semana depois, quando as temperaturas começaram a voltar ao normal, ainda não havíamos recuperado a rotina. Apenas nos forçávamos a comer o mínimo e continuávamos a ingerir muito líquido. Ele, porém, começou a enfraquecer e perder peso. Preocupado, voltei à clínica e o submetemos a uma série de exames e análises mais minuciosos.

Os resultados não foram animadores. Os rins estavam gravemente afetados. Parecia sentir dor nas articulações das patas traseiras também. A medicação, especialmente preparada, iria apenas sustentar seu corpinho, que ia definhando aos poucos e que preocupava-me sobremaneira. Meu grande amigo e companheiro, de tantas aventuras e alegrias, havia adoecido gravemente e eu não sabia o que fazer.

Aquele gato ativo e superinteligente, manipulador, desastrado e brincalhão, que não deixava passar, sem seu controle, nenhum horário das refeições ou de ir para a cama, de apagar as luzes ou fechar as portas, tornara-se um bichinho sofrido e apático, que apenas deitava-se ao meu lado, ainda, como dantes, porém já sem conseguir fazer-me rir. Apenas ficava a olhar-me, com seus olhinhos tristes, como se aconselhasse, com aquele olhar, a preparar-me para o que vinha, rapidamente, a seguir.

Pouquíssimas semanas passaram-se, frustrando todas as minhas tentativas de fazê-lo animar-se e reagir. Ele não reclamava. Não gemia. Não miava. Mal andava e, quando o fazia, era com um esforço imenso. Por fim, até mesmo o peso da cabeça impedia-o de beber água sozinho. Havia necessidade de segurá-lo pelos ombrinhos, para que pudesse atingir a água sem que o nariz pendesse e ele se afogasse.

Ele passou de cem por cento a zero, em menos de três semanas. Completamente dependente de mim para todas as funções, sendo alimentado e medicado por seringa e aplicações de soro subcutâneo, ele entregou-se ao destino.

Desesperado e despreparado, ainda tentei até o fim.

Na madrugada de uma quinta-feira (ah! Como eu ainda odeio quintas-feiras!), dormindo, como de costume, ao meu lado, na grande cama de casal, ele gemeu. Levantei-me, com ele no colo e levei-o à cozinha, onde tentei dar-lhe água e levá-lo à caixa de areia. Foi em vão, todavia. Ele recusou ambas as ações.

Deitado sobre meu peito, no sofá da sala, ele deu seu quase último suspiro, avisando-me que estava próximo do inevitável fim. Partiu, plácido e calado, poucos minutos depois, ainda sob os meus cuidados e meu carinhoso e suave abraço, a volta de seu corpinho debilitado. Minhas lágrimas pousaram, mornas e inúteis, sobre seu dorso sem vida.

Meu grande amigo e companheiro, de mais de treze anos, foi-se embora para sempre. (Para onde vão os gatos, afinal, quando morrem? Existe um Paraíso para eles? Existe um, para nós, humanos?) Fiquei sozinho, triste e desconsolado, sem saber como viver - sem a sua tão forte presença.

Acredito que tenha sido a situação mais desesperante da minha vida. E porque amei-o total e incondicionalmente, como nenhuma outra criatura antes dele, eu chorei. Admito, sem vergonha, que nunca havia chorado tanto, como fiz naquele dia (e, também, nos subsequentes)...

Na noite daquele dia, a grande cama de casal parecia um deserto. Estéril e desolado. A sensação era de um verdadeiro, imenso e frio deserto... glacial demais… a sufocar-me o fôlego, a comprimir meu peito. Afiadíssimas lâminas de um gelo frígido e ácido perfuravam, corroíam  e congelavam meu pobre coração.

A casa ficou quieta… vazia… enorme… como o enorme e amargo vazio deixado na minha vida e na minha alma…



sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Propostas


- Nunca deves fazer-me este tipo de propostas. Eu posso acreditar nelas e cobrar-te, com juros, mais tarde…

Disse aquilo com um sorriso e com uma naturalidade, que pareceu-me tratar-se de uma simples brincadeira de sedução. Mal sabia que a intenção, por trás daquela brincadeira, era mais séria que se podia imaginar.

- Tens medo?

- De quê? De acreditar? Claro que não!

Deu uma risada alta e jogou a cabeça para trás. Aquele gesto era-lhe absolutamente adorável e, aquele sorriso, deliciosamente apaixonante.

No meio daquela galhofa, íamos dizendo pequenas verdades, apalpando o terreno, nos aproximando aos poucos e propiciando um crescendo de expectativas. No fundo, queríamos mais do que verbalizávamos e desejávamos mais que tencionávamos demonstrar.

Minhas pupilas devem haver-se dilatado, quando olhou-me subitamente nos olhos, pois notei que simulou um sorriso maroto, que fez-me enrubescer, como se houvesse desvendado um mistério, sem necessariamente pretender. Eu estava à sua mercê, como um navio entregue nas mãos de um experiente timoneiro, mesmo que navegando em águas desconhecidas…

Aquela deixa não passou despercebida de todo. Um toque de pluma contornou-lhe o desenho das sobrancelhas, em volta dos olhos, desceu pela curva do nariz e, finalmente, seguiu o delicado traçado dos lábios… Nossos olhos encontraram-se novamente, quase por acaso, enquanto nossas bocas somente seguiram o curso natural das coisas.

Em poucos segundos estávamos grudados um no outro, num beijo tão ávido e num abraço tão firme, que parecia que um queria virar tatuagem impressa na pele do outro.

Suas mãos procuravam minhas costas, minhas nádegas, minhas coxas… meu corpo inteiro.

Minhas mãos seguravam firmemente seus cabelos e sua cabeça, buscando o pescoço, descendo com força, quase arranhando suas costas, trazendo seu corpo para mais perto do meu, como se aquilo fosse, de alguma maneira, possível…

Não sei onde nossas roupas foram parar, no meio daquele descomedido frenesi. Só sei que já não conseguia mais pensar, nem usar a razão ou mesmo a coerência… Havia-me transformado no mais servil escravo da emoção, do desejo e da luxúria.

Eu olhava os detalhes e admirava a pele rosada, sardenta… os pelos ruivos… a verdade sempre se esconde por baixo de tudo… Afinal, eles eram encantadora e atraentemente ruivos - e minha euforia ficou tão rubra quando a cor daqueles pelos, que inflamaram minha libido, transformando nossos corpos em pontos de ignição de um incêndio, a espalhar-se, incontrolável, com a velocidade de um furacão de prazer.

Deixei-me conduzir por labirintos de carne e músculos, peles e pelos, linhas tão bem desenhadas - por onde minhas mãos deslizavam sem parar -, salivas e secreções, sons e cores, sussurros e gemidos, num tempo atemporal e infinito… até que um grito abafado prenunciou um orgasmo, enquanto um vulcão em erupção lançava sua lava quente e imobilizava os espasmos do momento, num abraço apertado, envolvendo braços, pernas, bocas… e corpos tão emaranhadamente unidos…

No calor da exaustão que seguiu-se, as palavras, os gemidos e os sussurros transformaram-se em riso… e o derradeiro riso, num único compromisso:

- Podes fazer-me as propostas e as promessas que quiseres; quando quiseres; onde quiseres; mas nunca mais me deixes partir! Nunca!

domingo, 28 de julho de 2013

O Grande Discurso


- Meus estimadíssimos amigos… Ah! Como eu gosto de chamá-los de amigos. Quase poderia chamá-los de meus queridos filhos… de tanto que, agora, vos admiro.

A voz soou poderosa, em cadeia nacional de televisão, cobrindo todos os possíveis canais, com uma precisão invasiva de dar inveja a qualquer hacker. O foco da imagem foi-se ajustando, mostrando a estranha silhueta da figura em primeiro plano, enquanto o fundo ia desfocando de uma série de barbáries, filmadas em tempo real e reportadas ao longo das eras. E continuou:

- Eu tenho que reconhecer haver feito um belo trabalho convosco. Nunca pensei que uma raça tão limitada, como a vossa, fosse superar quaisquer expectativas que eu pudesse ter. Vós conseguistes ultrapassar toda uma carga de maldades e perversões que eu sequer pude congeminar. E posso garantir que estais em verdadeira e rápida evolução… de iniquidade… Não vos amo, porque não conheço este sentimento… mas vós sois tão odiosos, que me comovem…

Sem pigarrear, nem titubear, a voz procedia naturalmente, como se o discurso tivesse há muito sido preparado, para ser corrente e fluido, durante a transmissão.

- O Altíssimo vos presenteou com o livre arbítrio, com toda boa vontade que lhe é peculiar. Uma pena, para Ele, que a prenda não vos serviu. Eu dei-lhes, em contraponto, a semente da maldade. Não consegui prever, porém, que ela fosse encontrar terreno tão fértil em vós… Se não fosse uma grande blasfémia, eu até diria: Aleluia!!!

Fez um muxoxo, como se a palavra pronunciada lhe queimasse a língua e lábios, mas terminou com um movimento de canto de boca, que mostrou tratar-se apenas de uma ironia, propositadamente colocada, para ter um efeito mais dramático.

- Realmente, eu fui parvo a ponto de achar que era o próprio Mal. (Talvez até já tenha sido… há muito tempo atrás). Tenho muita vergonha de haver-me deixado ultrapassar por uma raça tão ínfima quanto a vossa. Vós conseguistes inventar tantas asneiras, tantas regras que conseguistes quebrar, tantos mandamentos de boa conduta - que fazeis questão de não seguir e que impingem dor e culpa aos vossos semelhantes -, tantos pecados capitais - que fazeis questão de superar com as mais requintadas das maldades -, que chegais a envergonhar até o mais desalmado dos demónios.

Vós rides de vossos semelhantes, daqueles que diferem de vossos padrões – tão perfeitos, esteticamente, que não os conseguis alcançar. E quando vossos corpos são moldados com muito exercício físico, falta-lhes um mínimo de bom senso… ou cérebro, por assim dizer.

Havia um peso silencioso no ar. O mundo havia parado para ouvir o discurso do Diabo. E ele parecia bastante coerente no que dizia. Quanta crueldade existia na verdade, jogada assim, na cara da Humanidade…

- Vós criastes os vossos deuses para, tão-somente, ignorá-los. Engendrastes vossas religiões, vossos novos cultos com os “manuais de procedimento” e discursos cheios de pompa, voracidade e entusiasmo, com palavras vazias de conteúdo e o intuito único de explorar, à vantagem, os pobres e os ignorantes – tão facilmente manipuláveis… E como o fazeis tão perfeitamente bem… Quanta inspiração maléfica tendes! Que pantomima exemplar! Tirais dos pobres para dares aos ricos! Que tão bem feita maldade…

Perdestes toda a fé e a capacidade de sentir remorsos…Nem no Diabo acreditais mais...

Por vaidade - (esse pecado merecia ser escrito com letra maiúscula!) e ganância - (esse também!) haveis cometido tamanhos desvarios e tantas inexplicáveis loucuras… que faltam-me palavras para vos enaltecer. Aliás, criar sete pecados capitais foi uma ideia de génio! Eu devia ter pensado nisso, antes que a igreja os houvesse publicado…

 Sabia que havia tocado num ponto crucial, mas também sabia que o mundo estava perdido. O discurso era enaltecedor - não um arrependimento, nem uma promessa de mudança…

- Vossos líderes - tanto políticos quanto religiosos - tem a capacidade de reverter qualquer posição tomada e assumida em completa vantagem pessoal. Vossos governantes e magnatas querem sempre mais e não medem esforços para deter toda a riqueza e poder possível, a qualquer custo. Que óptimo! Haveis acumulado não somente opulência, mas também desumanidade e indiferença… e orais para ter mais.

Orar? Para ter mais? Para ter mais dinheiro??? Mais riquezas???

O Grande Maligno deu uma gargalhada.

- Falais de pobreza, promoveis o castigo aos ímpios e pecadores e, no fim, sentais em tronos de ouro, com vossos dedos ornados com anéis de grande valor e ostentação… Ora, que grande atrevimento! Que genialidade maléfica!

Vós mereceis que eu vos tire o chapéu, ou até mesmo os meus cornos, em reconhecimento à vossa tão depravada imaginação!!!

A humanidade está, realmente, condenada, por vosso imensamente estimado livre arbítrio...

Graças a Deus! ...Oops! Perdão…

Ele deu uma risadinha e esperou, um segundo interminável.

As plateias, reunidas à volta de enormes telas em Times Square, Tóquio, Rio de Janeiro, Londres, Paris e Sydney, entre outros grandes centros de concentração, ficou em silêncio, por mais um instante. O diabo tinha um discurso bastante congruente. Parecia um grande político, fazendo um retrato dos seus mais desejados eleitores...

Alguém perguntou em alta voz se tratava-se de uma campanha política…

O diabo sorriu para si mesmo. Que grande ideia acabara de nascer!!!


quinta-feira, 18 de julho de 2013

Ginger


A velha mesa redonda havia sido encerada, ficando impecavelmente limpa e luzente. A empregada fizera um bom trabalho.

O velho sentou-se a ler, concentrado, o diário matutino. De repente, um furacão arruivado passou com a velocidade da luz e arrebatou-lhe o jornal das mãos. Um estranho estrondo seguiu-se àquela confusão momentânea.

Ele olhou à volta e logo compreendeu o que acontecera. O gato pulara sobre a mesa, para cumprimentá-lo, como de costume, sem saber que aquela estava, além de polida, tremendamente escorregadia. Ainda tentou voltar atrás, mas as almofadinhas e os pelos em suas patas não o ajudaram… Ao contrário, tornaram o deslize mais fácil. O gato perdeu o controlo, tentou agarrar-se ao que havia pelo caminho, levando consigo as folhas do jornal, passou directo até a borda da mesa e caiu desajeitadamente.

Do chão, ainda meio agachado, com os olhos arregalados e uma expressão aparvalhada, ele olhava o velho, sem perceber muito bem o que acabara de acontecer. O jornal, totalmente desfolhado e meio destruído pelas unhas afiadas, jazia ao seu lado, testemunhando a confusão acontecida há poucos segundos.

O velho riu alto e acarinhou a cabeça e o dorso do animalzinho, para acalmá-lo. Ele parecia bem, apesar de ainda assustado.

O homem, então, pensou na relação – especial e de amor incondicional - que tinham. Nunca havia imaginado que um mero gato de rua, gorducho e de tamanho além do normal, traria tanta diferença em sua vida, desde que fora adoptado.

Ginger nascera em África e sempre fora livre como o vento. No mais comum dos dias, vivia no jardim a caçar insectos e pequenos pássaros, subir nas árvores e nos telhados, ou simplesmente a dormir em baixo dos arbustos.

Brincalhão, inteligente, trapalhão, carinhoso, manipulador e muito esperto - quando queria algo - o felino sabia fazer-se comunicar, de uma forma que era clara como água, para o velho.

O nome dado referia-se à bela cor ruiva de sua pelagem. Mais de treze anos haviam-se passado, desde o dia em que a falecida esposa o trouxera para casa. Quando ela partiu, deixou-os a trazer consolo, cumplicidade e companhia um ao outro.

Às vezes, ao chegar à casa, uma tristeza abatia-o e ele sentia uma vontade enorme de chorar. Então, jogava-se no sofá, exausto e consternado. O gato deitava-se sobre seu peito, olhava-o nos olhos e ficava ali, presente, enquanto o velho desabava em lágrimas...

O animalzinho era sempre tratado com cuidado, carinho e, sobretudo, com extremo amor.

Apesar de saudável, porém, o bichano já era um sénior e o homem sabia que a expectativa de vida começava a aproximar-se do limite. As variáveis podiam ser muitas e, como tudo na vida, podiam alterar os prazos.

O homem tinha ciência que ele poderia faltar-lhe, um dia qualquer, num futuro bem próximo. Sabia também que ia sofrer. Sabia ainda que o vazio, tanto na casa, quanto em sua vida, ia ser bem maior que muitos podiam suportar, mas ele tinha que ser forte.

Não ia ser fácil viver sem o seu grande companheiro, depois de tanto tempo a conviverem juntos. Mas não podia deixar de amar o animalzinho dedicada e intensamente, nem de dar-lhe, cada vez mais, o máximo de atenção que exigia. Não temia, de jeito algum, sofrer a perda, nem devia evitar a dor.

O gato era uma grande parte do que ele era. Tinha o direito a ter uma vida mais curta, sim, porque - diferentemente do seu humano – ele já tinha a sua missão praticamente cumprida: a de fazer do velho um homem melhor.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Um Vazio...


Pela janela, eu olhava a faixa escura, além das luzes da cidade. Um desconfortável e negro vazio esmagava-me a alma, sem piedade alguma, pintando minhas recordações com tons sombrios. O som da campainha a tocar trouxe-me, subitamente, de volta à realidade.

Abri porta e convidei-o entrar. Com um sorriso maroto e atraente, puxou-me para si. “Abraçou-me, como se abraça o tempo, a vida num momento, em gestos nunca iguais”*...

Depois disse-me ao pé do ouvido, que sentia saudades minhas e fez-me navegar naquela onda de carinho. Suas mãos tornaram-se suaves instrumentos de deleite, ao tocar minha pele, meus cabelos, minha boca… Ele experimentou o sabor do meu corpo, minha saliva, meu suor… fazendo-me gemer, como se sentisse alguma dor… tão próxima do prazer, que confundia-me os sentidos.

E olhou-me como se visse através de mim… e consumiu-me, como se faminto estivesse… e bebeu-me, com a sede de um andarilho no meio do deserto… e sufocou-me, com seu beijo voraz, um grito incontrolado, como se quisesse alimentar-se do meu gozo…

Se pudesse ler-me os pensamentos, perceberia que nos carinhos dele eu ganho asas… poderosas e imensas. E sinto que “uma asa voa a cada beijo”* seu e que ele dá-me aquilo que eu nunca pensei ansiar: a loucura de voar e ganhar outros céus…

E quando, depois de nos rendermos ao desvario da entrega, o calor de nossos corpos arrefece e ficamos abraçados, quietinhos, a aproveitar o doce remanso da paixão, ele fala de suas incertezas e inseguranças. E diz-me que tem receio de pensar que nossa relação não seja o que eu espero, nem o que ele pode oferecer-me. E, às vezes, até chora… um choro angustiado e quase silencioso…

Eu, porém, sinto-me em segurança, num conforto preenchido por uma paz, que bem pode ser falsa, mas que não importa, realmente, contanto que esteja ali, com ele, pelo menos naqueles intensos momentos em que o sinto só meu.

Às vezes apetece-me também chorar, no abrigo de seus fortes braços, sentindo o calor de seus lábios a roçar-me o pescoço e arrepiar-me a pele, numa impressão controversa de frio e quente, que o diverte e o faz rir-se de mim, fazendo-me enrubescer com falso pudor… mas, sentindo-me, ao mesmo tempo, mais que especial.

Ele, então, recomeça a brincadeira de tocar-me o corpo, com a delicadeza de suas mãos grandes e mornas, fazendo-me desabrochar com seu contacto, como se das cinzas revivesse e a descobrir-me sensual, como nunca dantes pensara ser...

Uma explosão vermelha faz-me imaginar que o mundo lá fora parou de girar… distante de nós, numa outra galáxia, talvez… até que o despertador do telemóvel, insensível e cruel, toca outra vez e ele levanta-se da cama quente - em um silêncio, que não sei, ao certo, compreender – veste-se e sai, por fim, (...),”levando-me o perfume de tantas noites mais”.*

Eu, então, encolho-me com as cobertas entre as pernas, como se fosse uma flor a murchar ao frio e ao vento e volto a sentir aquele imenso vazio negro a dilacerar-me por dentro, com seu frio e afiado punhal, que vai cortando, lentamente, todas as minhas alegrias e esperanças.

Vejo-o a partir novamente, após a breve despedida… e penso nele a chegar a casa e abraçar a fiel esposa…


(* Extraído de Pedro Abrunhosa: Eu não sei quem te perdeu)



segunda-feira, 1 de julho de 2013

A Carta


Assim que entrei, os meus olhos foram atraídos pela folha de papel. A carta, pousada em cima da mesa vazia, estava, estranhamente, assinada por ela.

Não se tratava de uma despedida. Era mais um recado: simples, breve e direto. Anunciava, apenas, o fim… quase impessoal, como uma lista de compras ou um comunicado de que ia chegar mais tarde do trabalho.

Senti um vazio…um enorme vazio a abraçar-me a alma, a pesar-me nos ombros e um cruel e triste silêncio a impregnar a casa deserta.

Mas não era aquela sensação que incomodava. Eu já sentira muito mais vazio, estando a seu lado, dividindo a cama, sem compartilhar os sonhos, sem sentir prazer no sexo automático - que já nem frequente era – e que só me fazia sentir vontade de lá chegar, para sair logo, tomar um banho, voltar a deitar-me e dormir.

Não era tampouco a carta, assim secamente escrita, ainda pousada sobre a mesa, a anunciar a partida – sem volta - sem considerar o que alguma vez sentimos, ou mesmo o que fizemos um pelo outro, que me inquietava.

Já não havia nenhuma emoção desnecessária, nem tampouco explicações, no teor da mensagem … pois estas já não faziam, mesmo, diferença alguma. Já não havia nenhuma necessidade de demonstrar ódio, nem amor, nem piedade, nem nada… A nossa história havia-se simplificado nas estéreis palavras escritas naquela folha de papel.

Pensei no tempo que havíamos perdido, sem que, por comodismo, tomássemos a corajosa-covarde atitude que ela tomara sozinha e na minha ausência. Talvez evitasse, assim, a obrigação de olhar-me nos olhos e hesitar...

Aquele era apenas um fim. Daqueles que não deixam ódio, nem mágoa, nem mesmo qualquer amizade. Daqueles que fazem, no futuro, questionarmo-nos as razões de havermos deixado a relação chegar ao ponto de a separação não fazer mossa alguma em nossas vidas.

O fim, sabe-se, nunca advém do nada. Vem sempre como consequência de muitos fins… de muitos erros e de muitos desencontros... de tantos pequenos e incómodos gestos que, então, somam-se, como gotas d’água de intolerância, ao copo já totalmente cheio.

Não era nada daquilo que, naquele momento - a olhar a folha de papel, então em minha mão e a pensar numa parte de minha vida praticamente desperdiçada - me incomodava o espírito.

O que me incomodava, na realidade, era ter sido ela - e não eu - a ter tomado aquela decisão. A bravura de ter tomado a dianteira e resolver por um termo à relação, deveria ter-me acontecido há muito tempo atrás, antes que os sentimentos - tanto os pequenos, quanto os grandes; tanto os bons, quanto os maus - houvessem partido, definitivamente, sem deixar qualquer vestígio em nossas emoções…

Antes mesmo que eu olhasse aquela assinatura no papel e a visse como de uma verdadeira e completa desconhecida…