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terça-feira, 24 de março de 2020

Soothing



And today,

If I could only

Make a wish,

I would have only one:

To be quiet

In your arms,

Cuddled, tightly,

By your loving embrace,

And hearing you,

Whisper in my ear

That everything

Is going to be alright…

(E, se hoje,
Eu pudesse
Fazer
Um desejo somente,
Este seria:
Estar em teus braços,
Quieto
E sendo cingido
Por um abraço apertado
E te ouvir
Sussurrar,
Em meu ouvido,
Que tudo,
Tudo mesmo,
Vai ficar bem...)

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Nenhum Dia Como Hoje (Prelúdio)


Prelúdio.

Olhou para o céu, à noite, mas não viu estrelas. Tudo o que via era uma imensa cobertura uniforme, tingida de um índigo, quase negro. Tudo pareceu-lhe tão seco, tão obtuso, tão trivial. Até mesmo a noite havia-se tornado inteiramente desprovida de qualquer interesse. Suspirou. Talvez quem estivesse seco fosse ele… mais por dentro que por fora…

***

A chuva caía lá fora. Torrencialmente. Ele gostava de chuva. Dizia que era bom para as plantas e para a alma. Resolveu sair, mesmo assim. Pensou em como uma decisão daquelas poderia mudar tudo. Em outras ocasiões, no passado, jamais sairia na chuva, se pudesse evitar. Agora, era questão de querer, não de poder. E ele queria.

Vestiu o casaco impermeável. Puxou o capuz por cima da cabeça e saiu. O ar frio de outono bateu-lhe de frente. Baixou a cabeça e ganhou a rua, a passos ligeiros. Sabia onde ir e tinha pressa.

***

Tacteou a mão dentro do bolso. Entre um tubo de protetor labial, um lenço de papel e as chaves do apartamento, estava o que procurava. Acariciou, com as pontas dos dedos, a superfície fria do metal. Quase sorriu.

À porta, depois das três batidas usuais, esperou. O som da chave, a girar na fechadura, encheu-o de uma excitação conhecida, numa antecipação maior que em outras vezes. Entrou em silêncio, até ouvir a porta fechar-se às suas costas.

O coração disparou.

***

domingo, 26 de abril de 2015

Um Pacto (In Pactus)


Por favor, não te apaixones por mim. Tu prometeste que não irias...

- Eu sei. Não te preocupes. Eu sei muito bem onde estou pisando. Já passei por isso antes e não vou-me apaixonar outra vez.

- OK. Lembra que tu prometeste.

- Sim. Eu sei. Podes deixar... Quando vens de novo? Já faz algum tempo, desde a última vez.

- Talvez na próxima semana. As coisas não estão fáceis do meu lado. A esposa está exigindo atenção. Anda meio desconfiada, mas eu estou apenas sobrecarregado de trabalho e sentindo-me muito cansado.

- Tu precisas é de uma massagem, um forte abraço e descansar tua cabeça no meu colo. Eu afago-te até que durmas em meus braços, relaxado e feliz.

- Soa como o paraíso, mas longe de ser viável em um curto espaço de tempo. Eu não posso escorregar agora ou posso perder tudo. Precisamos ter paciência.

Eu desisti de discutir. Não havia nada que eu pudesse fazer, de qualquer maneira. Desejei que a vida fosse diferente. Desejei que eu fosse diferente. Eu queria que ele fosse diferente. Mas a vida não é feita de desejos...

- OK. Leva o tempo que precisares, descansa um pouco... ou descansa muito... Quando estiveres pronto, novamente, por favor, me avise.

- OK. Adeus por agora.

- Até mais, meu querido. Vou sentir tua falta.

- Dorme bem.

- Tu também.

A conversa fora bastante superficial, simples e quase impessoal. Ambos estávamos tendo muito cuidado, tentando evitar o inevitável. Ambos acreditávamos que era fácil manter nossas emoções sob controlo. Homens casados ​​são, realmente, muito complicados.

Fechei a sessão, desliguei o computador e voltei à minha vida, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Nós costumávamos conversar on-line todos os dias, à mesma hora, dizendo quase as mesmas coisas e prometendo nunca nos apaixonarmos ou teríamos que deixar de vermo-nos, para o bem de nossas sanidades. Ele era um homem casado com mulher e filhos. Um par deles. Eu havia sobrevivido a um divórcio e queria continuar assim, sem mais ninguém. Não havia nada de novo naquilo.

A maioria das pessoas que eu conhecia também estavam divorciadas e gostariam de permanecer naquela condição, de qualquer maneira, durante o tempo mais longo que pudessem. Alguns deles, no entanto, tinham medo de envelhecer sozinhos.

Eu tinha a minha vida, meu passado, minhas crenças sobre o amor, relacionamentos e solidão. E eu gostava tanto da minha vida, quanto da minha liberdade.

Estar com ele era como ter alguém e não ter nada, nem ninguém, ao mesmo tempo. Mas eu não tinha medo de envelhecer, nem de solidão... absolutamente...

Decidi preparar algo para comer, descansar um pouco, talvez assistir um pouco de TV e ir para a cama cedo. Tentei não pensar sobre a conversa que tivera, por mais tempo que o necessário. Tendo minha mente e as mãos ocupadas, por algum tempo, seria perfeito para o momento.

O gato entrou na cozinha, sentou-se no tapete azul e ficou à espera de seu jantar e eu comecei a cozinhar um macarrão com molho de cogumelos, logo que o bichano foi servido. Meu único e verdadeiro companheiro estava OK com sua pequena porção de atum para o jantar e mostrou sua satisfação, esfregando a cabeça nas minhas pernas, assim que terminou. Brinquei com ele, afaguei-lhe a cabeça e voltei a cozinhar, depois de lavar minhas mãos pela milionésima vez, naquela noite.

Fui para a cama como planejado, após a refeição simples de massa, acompanhada de um bom e encorpado vinho tinto e tentei relaxar, esvaziando a mente, antes de adormecer.

Sonhei que estava em seus braços. Seus lábios eram quentes na minha fronte, minhas pálpebras, meu rosto e meus lábios. Seu gosto era doce e amargo ao mesmo tempo. Ele sempre havia sido doce, mas o acordo que fizemos trouxe uma espécie de amargura na minha alma, que não era novidade para mim. Ele estava repetindo aquelas palavras, que eu já não podia ouvir mais, mas, infelizmente, só se pode desejar que as coisas fossem diferentes. A verdade é, às vezes, muito difícil de suportar.

"Por favor, não te apaixones por mim."

Quão abstrato e estúpido um pacto daqueles poderia ser? Quão imprevisível pode ser um coração, antes que se perceba que já é tarde demais, para voltar atrás?

E eu conhecia meu coração muito bem. Eu poderia dizer todas as palavras e fazer todas as promessas e ainda permanecer longe de problemas, se eu quisesse, mas era isso que eu realmente queria? Se eu não sentisse aquela paixão, como eu poderia estar inteiramente presente naqueles encontros íntimos?

Eu adorava seu cheiro, seu sabor, seu toque e sua abertura em receber minhas carícias. Adorava a forma como ele sentia prazer com a minha presença; do jeito que ele dizia que era todo meu e eu tinha pleno acesso a tudo o que eu quisesse; a maneira que dava o seu corpo para mim e a forma como ele usava o meu corpo para seu próprio prazer e para o meu, também, é claro. Gostava de como ele me olhava no fundo dos olhos e como ele fechava as pálpebras ao ser tocado por meus dedos; o modo como ele segurava meu corpo perto do seu, enredava as pernas nas minhas, deixando a impressão de que nunca iriamos separar-nos novamente; a maneira como ele me beijava com paixão genuína e, também, do jeito que ele me amava.

Sim. A maneira como ele fazia amor comigo. Aquilo era mais do que o contato apenas físico, eu poderia garantir. Eu já tivera outros homens antes dele e ninguém tinha-me deleitado com tal paixão. Ele era apaixonado, gentil, atencioso e presente. Mas não era meu.

Ou, melhor dizendo: ele era. Por alguns minutos apenas, por vezes, um par de horas, ele era inteira e abertamente meu, como ninguém havia sido antes.

Eu tinha orgulho de suas realizações e de sua vida. Ele me dissera, certa vez, que eu era a única pessoa que sabia tudo sobre sua vida e seus desejos secretos. A maioria deles eram tão secretos, que quase escondia de si mesmo, mas, no entanto, haviam sido compartilhados comigo.

Que tipo de homem faria isso, sem ter uma confiança cega na pessoa com quem estava?

- Quando tu pensas em mim, no que tu pensas?

Ele corou. Não era bom em falar sobre seus pensamentos ou sentimentos, especialmente quando se referia ao nosso não-chamado "relacionamento".

Eu ri. Como ele podia ser tão docemente teimoso?

Ao dizer nada e corando assim, ele estava-me dizendo tudo, sem pronunciar uma única palavra. Ele não admitia o óbvio, nem aceitava a verdade. O que estava acontecendo entre nós era algo a ser seriamente considerado, mas ele nunca diria nada em alta voz. No fundo, entretanto, sabíamos... e muito bem... o que havia entre nós.

O que são as palavras, afinal? Por que uma pessoa precisa dizer o que acontece, em alta voz, quando os sentimentos não precisam de vocábulos, para serem, expressamente, expressados? Eu podia ver em seus olhos. Eu podia sentir em seu corpo. Eu podia ler seus pensamentos, só de olhar para ele e perceber a expressão terna em seu bonito rosto. Sua boca nunca iria pronunciar as palavras, mas eu podia ouvi-las sendo gritadas por seus doces olhos.

Eu olhei para ele e pensei: ‘tu não precisas admitir, mas eu sei que tu és, de fato, o meu homem’.

- E tu? Em que tu pensas, quando pensas em mim?

- Eu penso em anjos e percebo quão forte tu és. Eu gosto tanto de ti...

- Tu estás caindo em tentação e apaixonando-te, embora tenhas prometido que não irias. O que vais fazer agora?

- Eu não vou fazer nada. Não há nada que eu possa fazer, mas deixar minhas emoções correrem livres. Eu gosto muito de ti e eu não quero perder isso. És importante... muito importante para mim...

- Eu sei. Eu sei muito bem, mas tu prometeste...

Beijei seus lábios. Ele, então, respondeu-me com ternura, abrindo suas enormes asas e segurando-me em um caloroso abraço.

- Deixe a vida guiar-nos, por favor. Não lute contra isso, ou então vamos perder o melhor de nós...

- Eu não vou lutar... não vou lutar...

Acordei no meio da noite, sentindo-me feliz, sob a calorosa proteção de um anjo, que não existia de fato. Ele não era nada mais que uma doce ideia. Era o meu conceito de perfeição. Não era impecável fisicamente, embora eu gostasse de olhar para ele o tempo todo, mas era perfeito como um homem com quem se podia envelhecer, exceto que ele nunca seria meu, afinal... Nem eu seria dele, além da condição de estarmos completamente ligados por aqueles breves momentos, em que o mundo poderia parar de girar ao nosso redor e todos os problemas de nossas vidas complicadas nunca iriam passar da porta do quarto.

Não consegui dormir de novo até que o sol da manhã atingiu a janela do quarto e abriu caminho através das cortinas, dizendo que era hora de levantar-me e voltar à vida normal.

Os dias passavam muito lentamente e de forma muito aborrecida quando não nos víamos. Alguns dias depois, quando a campainha tocou, finalmente, meu corpo e mente estavam prontos para recebê-lo.

Quando abri a porta e vi-o, ali na minha frente, com seu sorriso irresistível, meu coração deu uma batida em falso. Ele não disse nada, até que eu fechei a porta atrás de suas costas e abracei-o com força, beijando-lhe os lábios.

- Senti tua falta.

- Eu também…

Nós tivemos uma das mais notáveis noites, desde que começamos a sair juntos. Ele foi todo meu e eu dele. Não me lembro onde nossas roupas caíram, a caminho do quarto. Não me lembro o que aconteceu entre a porta de entrada e minha cama. Eu só lembro que estávamos tão emaranhados, que éramos quase um corpo só.

Eu tinha necessidade física dele. Aspirei o seu perfume viril, tentando mantê-lo na minha pele e memória. Não fechei meus olhos porque eu queria mantê-lo no meu campo de visão. Eu queria apreciar a sua beleza e perfeição. Toquei cada centímetro de sua pele nua, com cuidado e suavidade. Ele respondeu a cada toque dos meus dedos no corpo no dele. Nunca disse uma palavra. Apenas respirou fundo e gemeu baixinho.

Em seguida, beijou-me com uma intensidade tão grande, que parecia ter fome. Ele tocou-me os lábios e o corpo com imensa paixão e desejo. Eu sentia-me como se um anjo de asas muito largas estivesse conduzindo-me ao céu. Em seguida, fizemos amor. Eu tinha certeza que aquilo não era apenas luxúria ou sexo: estava muito mais perto do sentido real de amor. Ele era completamente meu, assim como eu era dele.

- Eu não consigo deixar de pensar em ti o tempo todo. Achas isso normal? Eu fico pensando quando e como eu posso estar contigo... Se isto não for um sinal de paixão, não sei o que possa ser. Eu não tenho nenhuma dúvida sobre isso tudo e morro de medo do que sinto.

- Como é que algo tão bom e prazeroso possa causar-te algum tipo de medo? Não valorizas o nosso tempo juntos?

- Aí é que está. Eu aprecio muito e até acho que estou irremediavelmente apaixonado por ti, mas isso não está certo. Vou acabar machucando-te a ti e às outras pessoas, que não merecem, e isso não é justo, nem para ti, nem para elas. Temos que parar com isso, urgentemente!

- Meu amigo, se é isso que tu pensas e estás a deixar-me, por medo de machucar-me, não o faças... Agora, se o facto de estares apaixonado por mim, prejudica a vida de outras pessoas, então deves ir-te agora, antes que seja tarde demais.

Ele não disse nada, quando levantou-se e começou a vestir-se, saindo em seguida, sem dizer uma única palavra a mais.

Era estranho ver partir aquele homem, que deu-me seu tudo, naquela noite e tirou tudo de mim, apenas alguns minutos depois. Eu senti-me como se estivesse afogando em um mar de desesperança. Deixar-me assim, por estar muito envolvido comigo, além de ser um peso demasiado pesado para suportar, era também de uma injustiça e crueldade inconcebíveis.

Depois daquele último encontro, fomo-nos separando cada vez mais. Nossos contatos escassearam, exceto pelas mensagens de "bom dia", que tornaram-se cada vez menos frequentes, pois ele foi deixando de respondê-las, aos poucos, até deixá-las no vazio, completamente. Eu sabia que ele estava evitando-me daquela forma, para que pudesse ter certeza que eu poderia viver longe dele. 

Ele estava errado, mas não havia nada que eu pudesse fazer para convencê-lo do contrário. Ele deixava-me porque estava preocupado em envolver-se mais do que estávamos. Eu nunca temi nada daquilo. Deixou-me porque me amou… pelo menos foi o que disse... Eu tinha certeza, no meu coração, que ele havia sido sincero...

Os dias passaram uns após os outros, em sua sequência impiedosa e aborrecida. Algum tempo depois, quando passeava pelo Shopping Center, eu o vi, parado em frente à uma loja, olhando para uma moderna jaqueta de couro, exposta na montra. Meu primeiro impulso foi de correr até onde ele estava e surpreendê-lo, abraçando-o e beijando-o, na frente da multidão, que passava à nossa volta, absolutamente incógnita.

Comecei a andar em sua direção, mas parei, sentindo algo estranho, quando uma mulher, de repente, aproximou-se e beijou-o no pescoço. Um rapaz e uma menina, pré-adolescentes, também acercaram-se do casal e eles foram-se embora, andando pelos corredores, de mãos dadas e sorrindo um para o outro. Ele parecia estar bastante feliz.

Senti uma estranha pontada de dor, mas reconheci que ele, afinal, merecia aquela sua vida. Se ele estava feliz, eu deveria estar feliz também. Voltei-me, sentindo um peso enorme na alma, sabendo que ele não era, nem seria meu. Nunca havia sido, de qualquer maneira e eu tinha que viver com aquilo... infelizmente...

Naquele momento, o que eu precisava era de um café bem forte e quente… e com urgência... As coisas, na minha vida, teriam que, paulatinamente, voltar ao normal e eu sabia disso.

Só, novamente e como já era de costume, eu tinha que continuar a existir, embora sentisse que estava, lentamente, afogando-me em grande mágoa e decepção.

Não havia nada de novo ou surpreendente naqueles últimos acontecimentos, entretanto. Não era nenhuma novidade que minha existência continuasse a ser, assim, solitariamente desajeitada…



domingo, 9 de fevereiro de 2014

Confissão


A estreita porta de madeira com duas fileiras de vidros foscos coloridos, na parte de cima, foi empurrada para dentro com pouco esforço. Era uma daquelas portas de vai-e-vem, que abre para dentro e fora e ficava numa das laterais da entrada principal. O homem entrou e fez o sinal da cruz, em sinal de respeito ao que via no final do corredor central.

Uma imagem de São José com o menino no colo, em madeira esculpida e colorida, em tamanho natural, estava colocada no alto da parede por trás da mesa disposta no centro do altar. O santo olhava com bondade para os fiéis que instalavam-se abaixo de sua presença. Era esta a impressão que ele tinha, desde que entrara na igreja, há muito tempo atrás. Voltar ali, era como reviver o passado… mas não era por isso que ele estava ali. 

O cheiro característico da madeira encerada misturava-se com as lembranças e com o som dos ecos de seus passos, enquanto caminhava pelos corredores da grande nave. Ele queria e devia estar sozinho. Precisava daquilo. Expirou, como se a absorver algo do ar à sua volta.

Havia alguma coisa de sagrada naquele ambiente, antes visitado mais frequentemente. Engraçado como as igrejas não cheiram a detergente, nem à poeira, nem mesmo à fumaça dos incensos, apesar do uso constante deles: cheiram à santidade... Era este o cheiro que ele associava às igrejas.

O piso de granito decorado e gasto dava-lhe a sensação de solidez – uma impressão de segurança que ele sentia quando lá estava.

Quando era mais jovem, o homem gostava de sentar-se em silêncio, sozinho, nos bancos longos de madeira escura, sentindo uma pseudo-paz, uma tranquilidade protegida do mundo lá fora. Ele parou a meio caminho e sentou-se num deles.

***

Lembrou-se do dia em que ouviu o silêncio, na pequena capela do seminário onde fazia retiro espiritual. Ele fechou os olhos e viu-se sentado, sozinho, na minúscula capela, ao entardecer.

Não havia luzes acesas; apenas a iluminação natural, que vinha pelos vitrais. Havia saído da confissão e queria estar só. Ele esvaziou a mente e ficou quieto. Fechou os olhos. Quase sentia um nada a abraçá-lo, envolvendo seu corpo e mente.

Foi então que ouviu, muito baixinho, quase imperceptivelmente, a música que vinha de algum lugar, tomando conta de tudo à sua volta. A nona sinfonia. O hino da alegria. Somente pode ouvir porque estava totalmente quieto, quase sem respirar. E ele se tornou o silêncio e a música, como se não tivesse corpo físico.

Sentiu uma espécie de êxtase… uma leveza na alma… até ser interrompido…

***

Olhou para a construção à sua esquerda. Um impulso fê-lo levantar-se e dirigir-se até o pequeno confessionário, protegido apenas por uma cortina de tecido de um tom muito escuro de roxo, onde entrou e ajoelhou-se.

- Padre, dai-me a vossa bênção porque pequei…

- Filho, esta fórmula já não se usa há muito tempo.

- Oh…

- Há quanto tempo não te confessas?

Realmente. Ele já nem lembrava bem de quanto tempo fazia… Havia sido às vésperas do casamento, há bem mais de vinte anos atrás? Provavelmente sim…

- Mais de vinte anos, padre… a última vez foi quando eu acreditei numa grande mentira: que estaria unido até que a morte nos separasse…. Bom, foi uma verdade, até certo ponto: a morte do que nos unia, pelo menos… Masturbação ainda é pecado?

O padre riu. Uma mudança no assunto que trouxera o outro ali não era estratégia que ele apreciava. Ele olhou  para o lado. Pela grade, semiencoberto pela tela de protecção, o rosto do homem era apenas uma silhueta de perfil indefinido. Um pecador. Um crente ou um desesperado?

- Eu nem sei por onde começar… já custou-me muito chegar até este ponto e ajoelhar-me no confessionário, depois de tanto tempo…

***

O rapaz, sentado numa cadeira simples de madeira envernizada, avaliava suas faltas, em uma conversa de frente a um dos padres, que havia sido designado a ouvir as confissões dos jovens participantes do retiro espiritual de três dias, sem contacto com a civilização fora do prédio de pedra, no cimo do barranco, de frente para o mar aberto. A ingenuidade dava-lhe um certo ar de santidade e sua sensação de culpa por faltas tão menores, uma infantilidade adorável. Os cabelos castanhos muito claros, quase aloirados, caiam-lhe em cachos até quase a altura dos ombros, emoldurando a pálida face, que não escondia um olhar entre o perdido e o triste. O padre pensou que havia ali uma história duramente vivida, apesar da tenra idade.

 -…E é essa a história. Apenas nos encontramos, conversamos, ficamos juntos…

- Então ela só precisava de um pouco do carinho, que já perdeu ao longo de anos de convivência e rotina no casamento… Não é certo, mas não me surpreende. Aconselho-te a tomar bastante cuidado.

- Eu sei.

Mas, na verdade, não sabia…

***

- E o que te traz aqui, hoje, depois de vinte anos, meu filho?

Os padres têm a tendência de chamar-nos de filhos, não importa a idade que tenhamos. Será que isto faz parte do aprendizado no seminário? Ele pensou no motivo. Não havia realmente um motivo, havia? Ele nem ao mesmo sabia porque procurara abrigo num lugar que não frequentava há tanto tempo. Alento? Provavelmente também não. Devia ter procurado a psicóloga, antes...

O silêncio foi interpretado pelo padre como um sinal de culpa.

- O que o aflige?

- Sinto um vazio, padre. Um imenso vazio…

- Há quanto tempo não buscas a Deus?

- Desde que perdi a fé.

- Se a tivesses mesmo perdido, não estarias aqui… agora…

Ele ouviu e ficou em silêncio por uns segundos. Ia argumentar, mas o padre foi mais rápido que ele.

- Tu não precisas acreditar em todas as coisas. O próprio papa resolveu revelar alguns segredos e olha que está a ser muito criticado, tanto pelos fanáticos quanto pelo próprio clero. A fé, na verdade, não tem religião. Tu tens idade e percepção suficiente para entender o que digo.         

- Sim, padre. Eu compreendo bem. E um pouco do meu afastamento se deve aos meus questionamentos à acção da igreja, especialmente à nossa. A história e a ciência descobrem muitas coisas que estavam escondidas, por trás de muita hipocrisia e manipulação do clero, desde antes da idade média…

- Os tempos estão em mudança. Os fanáticos vão-se escandalizar. Eu mesmo estou ansioso para que estas mudanças venham logo, mas considero que é bastante delicado e até perigoso. O papa tem que ser muito forte, porque ele vai enfrentar muitas correntes contrárias à todas estas revelações.

O padre respirou fundo. Talvez pensasse que estava a falar demais. Não era sempre que encontrava alguém com discernimento suficiente para desafiar suas faculdades e discutir abertamente o assunto. O homem retomou o fio da conversa.

- A própria concepção de pecado mudou, não mudou?

- O mal existe. O pecado existe. A intolerância, a falta de respeito, a inveja e o rancor, a falta de consideração e de humildade… todos estes são, por assim dizer, pecados, que nos rondam todos os dias. Não falemos de matar ou prejudicar a vida dos outros, intencionalmente, nem de vinganças a ferro e fogo, porque estas são faltas bem mais graves e até mesmo pelo ponto de vista do estatuto dos homens, são puníveis pela lei. Os tempos modernos revelam crimes hediondos que nunca poderiam sequer ser imaginados há algum tempo atrás. A crueldade e a manipulação tomaram proporções que tornaram-se quase incontroláveis…. Ou não… O grande erro é que nos acostumamos a ver o mal à nossa volta e não fazemos nada. Com o tempo, aquilo torna-se normal…. Algumas vezes até aceitamos o que não admitíamos antes.

- Padre, nenhum destes motivos me trouxe aqui. Minha consciência está tranquila em relação a isto… O que eu faço com a frustração e a decepção?

- Só as sentes quando tiveste expectativas demais, meu filho. A culpa não é exatamente de quem te decepcionou. Não foste tu que esperaste demais?

- Talvez… E a raiva? E a inveja? E a desconfiança?

O padre nem precisou pensar para responder. Estava bastante acostumado com as pessoas e suas perguntas, nos muitos anos de profissão. Aquela era uma das mais recorrentes.

- São males que matam devagar… mas somente a quem os sente. É como se tu ingerisses um forte veneno e esperasses que outra pessoa morresse. Não faz muito sentido… quem morrerá, aos poucos, serás tu… Sentes solidão?

Ele lembrou-se da estranha conversa que teve, uma vez, com Akis.

***

- Eu preciso tirar umas férias, para ficar sozinho um pouco. Já sinto falta disso…

- Para ficar sozinho? Tu já não ficas só por tempo demais?

- Claro que não, senão não precisava ficar mais…

- Ninguém pode ficar mais sozinho do que um máximo admissível. Se o limite máximo que se consegue ficar, seja, digamos, do tamanho de um pacote de cigarros, não se pode exceder este limite. Não adianta querer colocar mais do que cabe dentro dele, nem que este pacote aumente de tamanho…. É simplesmente impossível! Como é que tu queres exceder o máximo exequível e tolerável?

- Eu simplesmente preciso, Akis. Ficar sozinho me devolve a sanidade.

- Tu me tiras do sério, sabias? Há vezes em que tenho vontade de te bater…

Ele riu. O outro desistia de argumentar, diante da teimosia irritante dele.

***

- Não, padre. Não sinto solidão. Às vezes sinto um vazio… às vezes, muita vontade de chorar… mas nem sei, ao certo, por que a tristeza me abraça de quando em quando e faz-me sentir assim desolado…

- E o que fazes?

- Choro… que mais poderia fazer?

Os joelhos doíam-lhe. A cabeça também.

-Tenho de ir, padre.

- Não disseste a que vieste…

O homem levantou-se, sem responder. Vontades contraditórias de matar ou morrer invadiam-lhe os pensamentos. Atravessou o corredor e saiu pela porta, sem olhar para trás. O padre esticou a cabeça branca para fora do confessionário e ficou a olhar o homem a caminhar para fora da igreja.

Não viu quando ele atravessou a rua, sem olhar para os lados… Ouviu apenas o som repentino de uma longa e brusca freada e um som surdo, como de algo sólido a bater contra algo… ou alguém…

Não demorou muito a correr para fora e deparar com o corpo ensanguentado do homem, na rua em frente da igreja, em meio a uma dezena de curiosos, que já se acumulavam no local. O olhar parecia haver sido congelado num ponto à sua frente. Parecia tranquilo, entretanto…


O padre fez-lhe o sinal da cruz na testa e recitou uma fórmula conhecida, fechando-lhe, com cuidado, as pálidas pálpebras…


quarta-feira, 10 de julho de 2013

Um Vazio...


Pela janela, eu olhava a faixa escura, além das luzes da cidade. Um desconfortável e negro vazio esmagava-me a alma, sem piedade alguma, pintando minhas recordações com tons sombrios. O som da campainha a tocar trouxe-me, subitamente, de volta à realidade.

Abri porta e convidei-o entrar. Com um sorriso maroto e atraente, puxou-me para si. “Abraçou-me, como se abraça o tempo, a vida num momento, em gestos nunca iguais”*...

Depois disse-me ao pé do ouvido, que sentia saudades minhas e fez-me navegar naquela onda de carinho. Suas mãos tornaram-se suaves instrumentos de deleite, ao tocar minha pele, meus cabelos, minha boca… Ele experimentou o sabor do meu corpo, minha saliva, meu suor… fazendo-me gemer, como se sentisse alguma dor… tão próxima do prazer, que confundia-me os sentidos.

E olhou-me como se visse através de mim… e consumiu-me, como se faminto estivesse… e bebeu-me, com a sede de um andarilho no meio do deserto… e sufocou-me, com seu beijo voraz, um grito incontrolado, como se quisesse alimentar-se do meu gozo…

Se pudesse ler-me os pensamentos, perceberia que nos carinhos dele eu ganho asas… poderosas e imensas. E sinto que “uma asa voa a cada beijo”* seu e que ele dá-me aquilo que eu nunca pensei ansiar: a loucura de voar e ganhar outros céus…

E quando, depois de nos rendermos ao desvario da entrega, o calor de nossos corpos arrefece e ficamos abraçados, quietinhos, a aproveitar o doce remanso da paixão, ele fala de suas incertezas e inseguranças. E diz-me que tem receio de pensar que nossa relação não seja o que eu espero, nem o que ele pode oferecer-me. E, às vezes, até chora… um choro angustiado e quase silencioso…

Eu, porém, sinto-me em segurança, num conforto preenchido por uma paz, que bem pode ser falsa, mas que não importa, realmente, contanto que esteja ali, com ele, pelo menos naqueles intensos momentos em que o sinto só meu.

Às vezes apetece-me também chorar, no abrigo de seus fortes braços, sentindo o calor de seus lábios a roçar-me o pescoço e arrepiar-me a pele, numa impressão controversa de frio e quente, que o diverte e o faz rir-se de mim, fazendo-me enrubescer com falso pudor… mas, sentindo-me, ao mesmo tempo, mais que especial.

Ele, então, recomeça a brincadeira de tocar-me o corpo, com a delicadeza de suas mãos grandes e mornas, fazendo-me desabrochar com seu contacto, como se das cinzas revivesse e a descobrir-me sensual, como nunca dantes pensara ser...

Uma explosão vermelha faz-me imaginar que o mundo lá fora parou de girar… distante de nós, numa outra galáxia, talvez… até que o despertador do telemóvel, insensível e cruel, toca outra vez e ele levanta-se da cama quente - em um silêncio, que não sei, ao certo, compreender – veste-se e sai, por fim, (...),”levando-me o perfume de tantas noites mais”.*

Eu, então, encolho-me com as cobertas entre as pernas, como se fosse uma flor a murchar ao frio e ao vento e volto a sentir aquele imenso vazio negro a dilacerar-me por dentro, com seu frio e afiado punhal, que vai cortando, lentamente, todas as minhas alegrias e esperanças.

Vejo-o a partir novamente, após a breve despedida… e penso nele a chegar a casa e abraçar a fiel esposa…


(* Extraído de Pedro Abrunhosa: Eu não sei quem te perdeu)