Uma brisa suave entrava pela grande porta de correr, que
ligava a varanda à sala de estar. Todas as janelas haviam sido abertas desde cedo,
naquele dia quente e ensolarado. Não havia uma única nuvem a manchar o intenso azul
do céu.
Depois de um leve e breve café da manhã, decidimos que
íamos passar a maior parte do dia à beira-mar. Seria apenas uma curta viagem de
carro até a praia mais próxima, onde poderíamos nos refrescar e relaxar juntos.
Afinal, para que servem as férias de verão?
- Eu
nasci na ilha, sabes disso. O oceano faz parte da minha existência desde que eu
me conheço por gente.
- Tu és
filho de um daqueles deuses do mar! Tenho certeza.
Ele disse aquilo e abriu seu largo, enigmático e adorável
sorriso, que sempre fazia a tristeza desaparecer dos meus olhos, por um
momento, como se nunca dantes tivesse ali estado.
- Meu
‘pai’, então, está muito sereno hoje. Até as ondas estão pouco agitadas, quase
uma calmaria, no momento. Ele provavelmente me sente por perto...
- Eu
pensei que o oceano fosse, de alguma forma, bem diferente disso. Eu conheço o Mar
Mediterrâneo. Já estive lá algumas vezes, mas não é, definitivamente, assim. O
oceano parece muito mais poderoso e a água é tão mais fria!
- É
melhor ficarmos pouco tempo aqui no sol direto, pois não estamos acostumados e
nossas peles são muito pálidas, para ficarem expostas assim a estes raios
escaldantes.
- Eu, às
vezes, duvido que tu tenhas, realmente, nascido na ilha...
- Quando
eu era jovem, tive uma grave queimadura de sol e tenho muito medo de repetir
uma experiência daquelas.
- Ah! Eu
sei muito bem o que tu queres dizer. Cometi o mesmo erro quando estava no
colégio. Podes-me ajudar com o protetor solar, então, por favor?
- Claro!
Vira-te, um pouco.
***
O vento soprava forte, anunciando uma tempestade. As
ondas batiam, ruidosamente, na costa e nas rochas. Nenhum barco havia saído
para o mar. O céu, muito nublado, estava mais escuro que o normal, para aquela
hora do dia. Algumas bravas aves marinhas esperavam na praia, como se
estivessem contando os minutos para pescar, mas o vento não as deixava chegar muito
perto das águas.
Eu estava sentado, sozinho e em silêncio e sem nenhum
pensamento sólido em mente. Gostava de estar ali, acompanhando o vai-e-vem das
ondas, quase em transe, como se a esvaziar minha alma de todos os problemas. Estava
tranquilo, por haver enterrado aqueles sentimentos pungentes do meu passado. Era
incrível como eu havia mudado nos últimos meses.
Ouvi o trovão, ao longe, e levantei-me, pronto para sair
da praia, antes que a chuva me alcançasse e caísse fria e pesada sobre mim.
Algo em minha mente, porém, me disse para esperar. Foi
uma sensação estranha, como se alguém me estivesse chamando. Eu olhei em volta.
O vento soprava cada vez mais forte e o oceano parecia mais selvagem.
Um cão corria ao longo da linha do mar, seguido por um
menino de cerca de cinco anos, atento ao animal, mas totalmente alheio a
qualquer perigo. O cão correu atrás de algumas das gaivotas que descansavam na
areia, junto às rochas. O menino vinha, sorrindo e brincando, atrás de seu
animal de estimação.
A chuva, como já devia ser esperado, caiu sobre todos
nós. Os dois não pareciam se importar com nada, além de sua brincadeira.
O animal escalou o rochedo e acabou afugentando os
pássaros, que lá estavam. Uma onda bateu, ruidosamente, contra as grandes pedras.
Eu pressenti o perigo e corri, mas não fui rápido o suficiente.
O menino pisou na superfície molhada e escorregou. Ele tentou,
mas não conseguiu agarrar-se a nada e foi abraçado pela onda que se seguiu. O
pobre cão ficou totalmente perdido, tentando fazer alguma coisa, correndo e ganindo
em desespero.
Antes que eu os alcançasse, o animal pulou no oceano,
atrás do rapaz, que já não estava à vista.
Eu gritei, mas era tarde demais. Eles desapareceram em
segundos, engolidos pelas águas frias e agressivas.
Eu não pensei muito. Apenas agi por instinto.
***
- O que foi
que tu fizeste?
Eu virei a cabeça.
- O que tu
achas que eu fiz?
- Como
foi que aquilo aconteceu?
Evitei a pergunta.
- Ele
está vivo, não está? Ambos estão. É isto que importa, na verdade...
- Sim. Mas…
Eu olhei pra ele. Ele segurou meus braços, com firmeza e
tentou falar devagar e com calma.
- Havia
uma tempestade e o mar estava muito agitado. Como tu poderias retirá-los das
águas, assim? Como aquela tempestade poderia, simplesmente, parar e o mar ficar
tão plácido?
Evitei seus olhos.
- Eu não
sei. Como eu iria saber?
- O que tu
estás escondendo?
Fechei meus olhos e as memórias vieram rápidas na minha
mente. Quando os abri de volta, seus olhos estavam fixos nos meus. Decidi que
não poderia evitar os fatos, nem a verdade, então falei.
***
- Meu pai...
me ajude!
Saltei das rochas, para dentro do mar. Senti como se o
tempo tivesse parado. As águas, de repente, se acalmaram e as ondas quase
desapareceram.
Eu vi o menino e seu cão bem perto. O animal arrastava o
dono pela camisa e vinha na minha direção, como se soubesse que eu estava ali
para tirá-los do perigo que corriam. Ambos haviam engolido bastante água e o
menino estava quase inconsciente.
Ele tentava respirar. Eu o puxei de volta para a praia e
massageei seu peito, mantendo seu rosto virado para o lado. Ainda quase
inconsciente, ele expeliu um pouco de água, tossiu e aquilo deixou seu rosto mais
corado.
O cão saltava ao nosso redor, ganindo e inspecionando o
amigo com o focinho.
Eu ouvi alguém gritando. Dois homens vinham de direções
diferentes. Um deles eu conhecia muito bem.
O homem se aproximou do menino e segurou-o contra seu
peito. Aparentemente, havia-me visto salvando seu filho...
O rosto amigável do outro homem estava voltado para mim,
com seus curiosos olhos azul-esverdeados, muito abertos.
Olhei para o mar, que voltou ao seu estado normal, quase
que imediatamente. A tempestade se fora. Ao longe, a espuma branca das novas
ondas desenhava figuras engraçadas na água. Uma onda específica parecia ser
mais alta que todas as outras. De repente dissolveu-se e deixou a superfície da
água quase intacta...
Sorri para mim mesmo e encarei meu melhor amigo, que
estava parado ao meu lado.
Ele olhava para mim, seriamente, com seus olhos brilhantes muito
arregalados.
***