Mostrar mensagens com a etiqueta computador. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta computador. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Pandemónio (na casa de descanso) - Epílogo

- …E não poderia ter revelado isto antes? Me desculpe a impaciência, mas é-nos absolutamente necessário ter ciência das condições médicas das pessoas que entram por aquela porta e aqui vivem. Como é que isso passou, sem que tomássemos conhecimento? Isto é inadmissível. É muito grave.

A directora se sentia cansada e preocupada ao mesmo tempo.

- Ele diz que consegue perceber quando uma crise se aproxima e se prepara. É quase como entrar em depressão. Isolar-se é uma forma de defesa. Se sentir que não há necessidade de incomodar ninguém, prefere ficar à margem, até a crise passar. Afinal, a medicação deveria ajudar a retardar a evolução da doença.

A enfermeira-chefe sabia que não era bem assim. Repetia o que ele lhe havia dito, mas não concordava com o discurso. A medicação não impedia a evolução da doença. Era preciso mais que o isolamento e o remédio, para retardar o progresso. Ele necessitava de um acompanhamento mais de perto. Ela sabia que o facto de exercitar, bastante, o cérebro era um bom sinal. Ele desenhava, pintava, escrevia, lia e ainda tinha as cartas de tarot e o computador… Não se sentia nenhum inútil e não era um covarde. E até que enfrentava a condição com muita coragem e cabeça fria. Mas isso não era suficiente. Ela tinha uma influência sobre ele e tinha que se aproveitar desta. Precisava mantê-lo sob constante vigilância, tentando, entretanto, não ser invasiva à rotina dele.

A directora, por seu lado, tratou de fazer suas pesquisas acerca do historial da doença, com o médico que assinara o diagnóstico e que havia sido emitido mais de dois anos atrás. O médico – o mesmo e único homem, que um dia visitara, incógnito, o velho, na Casa de Descanso - confirmara que não havia sido consultado desde então. Se o paciente tomasse a medicação e tivesse acompanhamento adequado, a doença poderia evoluir mais vagarosamente. Era necessário fazer uma reavaliação, com toda certeza.

O velho passava boa parte do dia observando, distraidamente, o movimento no portão de entrada. Sentava-se no habitual banco de madeira, em baixo da árvore no pátio, com o gato a lhe fazer companhia. Nestes últimos dias, parecia normal, embora um pouco mais introvertido que de costume. Parecia que se preocupava em não deixar a enfermeira-chefe mais aflita que já estava. Prometera a ela que se cuidaria melhor. Ele se deixava levar, por gostar dela mais que conseguia controlar e por tentar prolongar aquela atenção por tanto tempo quanto possível. Quanto mais lúcido estivesse, mais desfrutaria da companhia dela. E ele sabia que seu tempo começava a ficar curto.

A enfermeira-chefe se perguntava como a relação com o gato não era afectada pelas crises do velho homem. Que estranha conexão havia entre eles, que nem a doença conseguia enfraquecer? Enquanto o bichano estivesse por perto, ela se sentia segura e, tinha certeza, ele também.


O velho abriu a janela, para deixar circular um pouco de ar dentro do aposento. Quando abriu a porta, não havia ninguém do lado de fora, no corredor. Ginger, o gato, se espreguiçou e se preparou para sair da cama, acompanhando o velho companheiro, que estivera se aperaltando por quase uma hora. O velho, porém, lhe diz:

- Hoje não, meu amigo. Hoje, eu vou sozinho.

O homem havia se vestido como se fosse sair para um passeio. Ele havia arrumado o quarto com esmero, deixara a caixa de areia devidamente limpa e trocara a água e a comida do gato. Com um olhar crítico, dá uma última avaliada no quarto e faz um carinho no animalzinho, que ronrona de satisfação, olha-o, sereno, como se compreendesse e se aninha sobre o travesseiro, apoiando a cabeça sobre as patas dianteiras, cruzadas. O homem sai, então, sem trancar a porta do pequeno apartamento.

O sol já ia alto no céu de Primavera, quando ele caminhou, corredor afora, na direcção da porta da varanda, que recebia uma brisa suavemente fresca, àquela hora da manhã. As pessoas estavam ocupadas, tomando o lanche da manhã e não perceberam quando ele passou pela porta de saída e atravessou, tranquilamente, o pátio. O homem cruzou o portão, cujo movimento havia observado, por semanas, virou à esquerda e saiu pela calçada afora a assobiar uma velha canção conhecida sua.

“And it was cold and it rained so I felt like an actor
And I thought of Ma and I wanted to get back there
Your face, your race, the way that you talk
I kiss you, you're beautiful, I want you to walk”…*



Poucos minutos depois, a enfermeira-chefe entra e vê, somente, o gato deitado. As orelhas do bichinho se movem, levemente, na direcção do ruído que ela faz. A mulher sorri e balança a cabeça, como se desaprovando aquela organização no quarto do velho. Ela percebeu que um único detalhe conspurcava a cuidadosa arrumação: dentro da lixeira jazia um pedacinho de papel, amarelado pelo tempo e dobrado em dois. Ela apanha-o, desdobra-o e lê a curta mensagem. Uma letra miúda e rebuscada mostra um endereço electrónico. Não é a caligrafia do velho, ela reconhece.

Ela sai, vai à saleta dos computadores e envia uma breve mensagem, por e-mail, ao endereço escrito no papel. Levanta-se, arruma a cadeira e sai. Já ia à porta, quando ouviu o computador dar alerta de mensagem chegando. Volta-se e lê: “o provedor não conseguiu encontrar o destinatário”…

- Algo não está certo. Seria somente uma lembrança, guardada com carinho? E se fosse…

A mulher conecta, então, o Messenger, digita o mesmo endereço escrito no papel e envia uma mensagem. Era um tiro no escuro, mas poderia dar resultado… Ela ouve o som de vozes se aproximando e sai da saleta, para não ter que dar explicações a ninguém.

Já no quarto, seus olhos pousam sobre um livro, cujo autor ela desconhecia e que havia sido deixado em cima de sua escrivaninha. Sobre o mesmo, havia um envelope fechado, com o nome dela, desenhado com esmero, como se fosse um exercício num caderno de caligrafia, com a letra cuidadosa do velho. Ligeiramente apreensiva, ela abre o envelope e retira uma pequena mensagem escrita, quase em código."Use a intuição e não tenha medo do desconhecido. As respostas estão lá: basta concentrar-te." Ela franze o cenho, mas compreende o que ele queria dizer.

A mulher abre uma gaveta, fechada à chave e de lá retira uma pequena caixa azul. Dentro da mesma, envolvido num pano quadrado de cetim roxo, está o deck de tarot – o presente dado pelo velho amigo. Ela vinha se esmerando no estudo da leitura das cartas, mais para agradá-lo, que para seu próprio proveito. A curiosidade queria controlar suas atitudes, mas ela tinha receio do que pudesse encontrar, quando começasse a descobrir coisas, para as quais não estivesse preparada. Era como se entrasse no oceano, mas tivesse medo de nadar. E ela não conhecia a profundidade daquelas águas.

Antes de continuar seu pequeno ritual, volta-se e tranca a porta atrás de si. Ela abre o pano em cima da escrivaninha e escolhe, no maço, uma carta para ser o “Significador”, perguntando-se se o velho seria representado pelo Ermitão – um homem solitário, sábio e prudente – ou pelo Imperador – um grande guerreiro, na hora da parada, protegendo os seus bens. Por fim, decide pelo Rei de Paus, por ser um homem mais velho e um Senhor do Ar: um grande mestre – que é como ela o via.

Em seguida, coloca a carta escolhida no centro e embaralha as outras, sete vezes, com cuidado. Parte em três, recolhe a partir do monte à direita, depois o da esquerda e, por fim, o do centro. Uma a uma, as cartas começam a deixá-la desconfortável. Por cima do significador veio a carta chamada Morte: a grande mudança. Esta era uma carta que as pessoas interpretavam muito mal. Talvez pelo nome, disse-lhe, certa vez, o velho. As pessoas têm medo da morte e temem esta lâmina, mas ela é positiva. Tem uma outra que parece menos malévola e é muito mais nefasta…

As cartas foram se sucedendo e seu coração apertando a cada interpretação. Dois de paus, na posição do futuro próximo: viagem curta; encontro com o mestre. A combinação da sequência final, porém, pareceu densa demais: o Enforcado, o Louco e a Torre: o fim de um sacrifício, a incerteza e a destruição… Ela nunca soubera interpretar direito a carta do Louco. Seria incerteza, ou um passo contra o desconhecido?

Pousou os olhos sobre a última lâmina: a Torre – a única carta realmente negativa de todo o deck – mais nefasta que a da Morte. Enquanto esta última significava apenas uma grande e radical mudança, a Torre significava a destruição... ou algo pior…

Foi então que ela entendeu… Levantou-se depressa e saiu para o corredor. Lá fora, as mulheres e também os homens estavam em polvorosa outra vez, falando todos ao mesmo tempo. As vozes, cada vez mais estridentes, pareciam aumentar à medida que ela se aproximava do centro do furacão acontecendo na sala principal, com a determinação de alguém que enfrenta uma tempestade. Do outro lado, perto da porta da saleta dos computadores, o olhar da directora, exasperado, lhe dizia tudo, sem que uma palavra proferisse.

No meio da confusão, ela soube. Duas lágrimas saltaram, sem cerimónia, de seus olhos azuis… O velho transformara a casa de descanso em pandemónio, mais uma vez…


No quarto, o gato, deitado no costumeiro lugar, fecha os olhos, tranquilo… Poucos minutos depois, dorme o sono dos justos. Instintivamente, se encolhe e vira a cabeça, deixando a parte de baixo virada para cima, como tantas vezes fazia – o que divertia o velho – quando quase pedia um carinho e uma coçada no queixo e pescoço…


A directora ouviu o som característico, conhecido, a vir do computador, na saleta. Aproximou-se e viu a mensagem a piscar na tela do computador. Com um click sobre a tela, abriu o Messenger e recebeu uma mensagem: olá, meu amado amigo… Já estava com saudades…

No canto superior, viu a foto de uma mulher, aparentando uns cinquenta e tantos anos, cujos olhos azuis ela reconheceu imediatamente. Intrigada, leu o nome que o destinatário usava. O mesmo sobrenome da enfermeira-chefe…

* Excerpt from (Five Years - David Bowie - 1972)

domingo, 13 de dezembro de 2009

Pandemónio (na casa de descanso) - Parte 6

Sempre que ouvia gritaria no corredor, a directora sabia que o velho havia aprontado alguma nova estripulia. Mas ela jamais iria se acostumar a ouvir a gritaria geral das mulheres e a correria pelo corredor afora. A enfermeira-chefe, alheia aos gritinhos nervosos das damas, divertia-se secretamente, pois de outra forma o tédio era mais comum que as aprontadas do velho e do gato. Vez ou outra, porém, a casa de descanso virava um pandemónio.


A velha mulher estava sentada, de costas para a porta, quando viu a grande nuvem de fumaça sair pela porta do quarto, ao fundo do corredor lateral. Imediatamente começou a gritar:

- Fogo! Fogo! O velho louco colocou fogo no quarto!!!

A correria começou. A directora, de dentro do seu gabinete, já imaginava o que - e quem - poderia estar causando o tumulto.

- O que foi que este homem aprontou agora, meu Deus? Será que não posso ter uma semana de paz, nesse… nesse… nesse manicómio?

Ela custava a encontrar a palavra certa, para definir o que o velho havia transformado a casa de descanso, desde que chegara, há dois anos. E sentia que ele vinha piorando, a cada dia que passava. Abriu a porta do gabinete e se dirigiu para o salão central, onde já encontrou a enfermeira-chefe, com o extintor de incêndio em mãos, se dirigindo a passos apressados pelo corredor a dentro.

Pronta para disparar a carga de pó químico contra o fogo, a mulher quase não conseguiu conter o riso, quando viu o velho sair, do meio da fumaceira, com uma máscara cirúrgica cobrindo o nariz e a boca. Este era um daqueles dias em que a coerência e a sobriedade do velho pareciam desaparecer por completo. Ela bem que poderia ter desconfiado, quando ele pedira a máscara a ela, uma noite, depois do jantar, sem dizer para quê precisava de uma. Pelo menos estava explicado os estranhos sons de murmúrios repetidos, como cântico, que o velho fazia lá dentro, poucos minutos antes. O velho disse que resolvera defumar o quarto, alegando que precisava purificar o ambiente.

O gato, que havia estado do lado de fora e arranhava a porta, ao receber a grande nuvem de fumaça contra a cara, não se atreveu a entrar. Ao invés disso, saiu atrás do velho, pelo corredor afora.

A enfermeira-chefe olhou para as outras mulheres, desvencilhou-se do equipamento que trazia nas mãos e entrou no quarto, a fim de abrir as janelas e ver se não havia nenhuma avaria deixada pelo homem, que tantas vezes lhe havia ensinado pequenos detalhes de como viver uma vida simples e colorida. Ela notava que ele começava a mostrar sinais de alheamento ou isolamento com mais frequência. Teve medo que houvesse mais coisa escondida, por trás destas atitudes.

Excepto pela fumaça e a quantidade de restos de palitos de incenso caídos num recipiente em cima da escrivaninha, não parecia haver nada mais a queimar no quarto. A mulher vasculhou todos os cantos, mas a única evidência de algo mais, era um pedaço de papel chamuscado, que jazia dentro da lixeira. Ao passar os olhos, lembrou de já haver visto aquele timbre, no alto da folha de papel, quase completamente queimada. O símbolo era de uma clínica de medicina.

- O que será que ele está tentando esconder aqui? Isto parece mais uma tentativa de acobertar uma evidência, que uma defumada no ambiente.

A enfermeira-chefe pensou que havia visto aquele papel anteriormente. Precisava prestar mais atenção aos pequenos detalhes, deixados à vista - talvez propositadamente - quando viesse visitar o homem, mais tarde…


Mais tarde, no pátio, os residentes passeavam ao sol e liam ou jogavam damas e xadrez nas mesas colocadas por baixo do grande flamboyant. O sol era sempre bem-vindo pelos “seniors”, pois lhes dava a liberdade de transitar livremente do lado de fora. O gato brincava do lado de fora, no canteiro de flores, perseguindo as borboletas e os pequenos pássaros que iam e vinham, como se a provocar o velho felino. O velho lia um livro, sentado num banco, a um canto, protegido do sol. Tudo parecia sob controle.

Mesmo assim, as enfermeiras passavam e verificavam os senhores e senhoras, ocupados em seus afazeres simples. Elas, na verdade, iam ver se algum deles – e um, em especial - não estava aprontando alguma. Quando todos estavam no pátio, as coisas ficavam mais calmas e controladas.

Quando todos estavam presentes na casa, é que as aprontadas do velho aconteciam. Em semanadas frias ou chuvosas, sempre acontecia alguma aparição inusitada. Ele parecia se divertir ao ver a mulherada em polvorosa. Uma vez, comprou um ratinho branco e soltou no corredor, para ver a reacção do gato. A reacção foi pior das mulheres que do gato, que se divertia a valer, em caçada ao pequeno roedor, enquanto as mulheres gritavam e corriam pelos corredores, ou subiam sobre as poltronas da sala de visitas.

Outra vez, o gato encontrou um pequeno lagarto no jardim e o trouxe para dentro, depositando-o aos pés do velho, na hora da refeição. Nova gritaria, quando o lagarto deu por si e saiu correndo, com o gato em perseguição desgovernada entre os pés dos comensais no salão principal.

As enfermeiras mais jovens já haviam se acostumado a estes acontecimentos, severamente condenados pela directora, mas tolerados por elas, já que eram inofensivos e as divertiam, quebrando a monotonia da casa de descanso.

Quando era acusado de colocar em risco o sossego e saúde dos outros residentes, o velho respondia com um sorrisinho de canto de boca, ou uma larga gargalhada, mas nunca com uma explicação.


Da janela do quarto, o velho observava o portão principal. O porteiro era metódico nos horários e não abandonava o posto facilmente. Todas as entradas e saídas eram devidamente registradas, de modo que a direcção soubesse, sempre, quem saía e quem entrava no recinto. Em todo o tempo em que se encontrava na casa de descanso, ele havia recebido uma única visita. Um homem havia vindo, há algum tempo atrás, conversar com ele e não ficou mais que uma hora em reunião privada.

Devido a avançada idade da maioria, as saídas para fora do recinto eram somente autorizadas se fossem acompanhadas, por isso o grupo sabia que, uma vez por semana, às quintas-feiras, uma van os levava ao centro da cidade, ao shopping center, ao cinema, ou a algum outro lugar previamente combinado. O velho não costumava acompanhar os outros nestas viagens. Preferia ficar ocupado com seus hobbies e com o acesso quase livre ao computador, por um tempo mais longo.


Nestas ocasiões, em que a casa de descanso ficava mais calma, o velho aproveitava e passava a tarde inteira trancado no quarto ou na sala do computador. Foi numa destas tardes, que a enfermeira viu, “en passant”, o que aparecia na tela do computador. Ela, que achava que o velho apenas se divertia lendo ou pesquisando alguma coisa na internet, ficou surpresa ao ver que estava em “conversa” no Messenger.

Ela parou, intrigada, à porta, mas logo foi notada pelo homem, que desligou imediatamente e saiu da saleta, sem dizer uma palavra, nem olhar directamente à ela. Pigarreou ao passar pela porta e assobiou uma canção conhecida sua.

A enfermeira ficou ali, parada, a olhar a tela vazia do computador, imaginando quem poderia ser o contacto do velho, com o mundo lá fora…