quarta-feira, 10 de abril de 2013

A Visita


Eu tinha a cabeça recostada ao grande travesseiro que jazia, desalinhado, na cabeceira da cama. Meus olhos estavam cerrados, mas eu não havia adormecido ainda. Havia um leve perfume de alfazema no ar.

Na taciturna penumbra do quarto, minha intuição alertou-me que não estava sozinho. Foi como se a atmosfera à minha volta houvesse mudado. Senti sua forte presença, muito próxima de mim. Sabia, com uma certeza absoluta, que ela estava ali e que só poderia abrir meus olhos se tivesse permissão para tal. Por incrível que pareça, são esses instintos que sempre flutuam na minha cabeça, naqueles tipos de ocasiões. Eu não precisava de mais certeza que aquela.

Senti seu rosto repousar sobre minha cabeça, com suavidade… leve e carinhosamente... quase um toque de pluma. E ela disse, baixinho:

- Eu precisava vir…

Sem abrir os olhos, eu falei:

- Quero te ver.

Ela sussurrou, incerta:

- Mas eu estou diferente.

- Não tem importância, disse-lhe eu.

Ao que ela respondeu:

- Tenho medo.

- Eu também...

Minha afirmação era uma verdade incontestável. Minha razão receava que, ao abrir os olhos, um sentimento negativo assolasse meu espírito e o medo ou decepção a afastasse de mim.

Ela havia mantido seu silêncio, como se os meus temores fossem também os dela. Foi então que decidi que devia abrir meus olhos e enfrentar o que visse e viesse. Era necessário mais que coragem naquele momento – era preciso uma atitude arrojada, que derrubasse barreiras e juízos pré-concebidos…

Abri os olhos devagar.

Sua face realmente estava diferente, mas ela me olhava do mesmo jeito – aquela maneira meio triste, como se estivesse sentindo uma certa apreensão em relação à minha possível reacção. Os ossos da face pareceram-me mais acentuados e ela tinha aquela melancolia incerta no semblante… Minha mãe parecia mais jovem, todavia, que da última vez que a vira.

Toquei-lhe a face com delicadeza, como uma criança faria e vi que ela fechou os olhos ao meu contacto, como se aquele leve roçar de meus dedos sobre sua pele lhe fizesse algum bem. Foi então que eu chorei. Não por medo, nem por angústia… chorei por nostalgia, por sentir uma saudade enorme...

O relógio despertou-me, apagando de imediato meus pensamentos, chamando-me à realidade e à vida. Levantei-me de um salto e fui ao duche, entrando automaticamente na rotina diária.

Ela havia vindo a mim em um sonho, como não podia deixar de ser; um sonho cujos detalhes não lembrei imediatamente, ao despertar. Foi somente quando voltei ao quarto, para vestir-me, antes de sair para trabalhar, que as imagens vieram como num filme.

Foi como se acordasse, naquela hora, a memória de poucos minutos antes. Meu peito apertou-se, diante da tristeza gigantesca que me tomou os pensamentos. Daquela vez meus olhos inundaram com lágrimas incontroláveis e eu chorei mais… muito mais que no sonho. Sentado à beira da cama, enterrei o rosto nas mãos e me deixar levar por aquela emoção estranha, que misturava dor e saudade – uma saudade impossível de matar com uma viagem programada ou um telefonema de longa distância...

Como já era costume, Tiger entrou no quarto, mas ao ver-me soluçar, chegou-se, deu-me a tradicional cabeçada na perna e sentou-se a observar-me, quieto e com fixa atenção. Somente quando viu-me composto novamente, o astuto gato saiu do quarto… ainda em absoluto silêncio. Aquele respeito tácito fazia-me ter grande consideração pelo animalzinho que soube cativar-me tão bem e exercer tão marcante presença na minha vida.

Durante aquele dia, muitas vezes senti ondas de tristeza irem e virem, comprimindo-me o peito, incontrolável e inconsolavelmente. Por várias vezes tive de engolir, a seco, a vontade de chorar, para não parecer tolo, nem ter que explicar o inexplicável, para quem olhasse e percebesse o estado em que eu me encontrava.

Quando voltava para casa, vinha a pensar no que me acontecera durante o dia ou em coisas que me afectaram o humor, incidentes pessoais ou mesmo pensamentos aleatórios, engatilhados pela música que tocava no momento. Foi então que compreendi…

Em meu pequeno mundo, sua ausência ainda é sentida e um certo inconformismo diante do facto de não haver podido dizer-lhe adeus, propriamente, faz-me pensar, de vez em quando, nas últimas palavras que trocamos.

- A gente se fala na semana que vem…

Nem mais, nem menos. Entre nós existia aquela espécie de comunicação que sempre indicava continuidade. Quando ainda estava por perto, era a mim que ela esperava nos fins-de-semana para ir à farmácia, ou ao supermercado, ou ao shopping center comprar algo que necessitasse ou desejasse. Era o meu telefonema que ela aguardava sempre aos domingos, às 3:00h da tarde, estivesse no Brasil ou longe de lá.

No fundo, dizer que ia ligar-lhe na semana seguinte foi a melhor despedida que pude fazer. Era um simples “até breve”, que ficara entre nós… e agora ela vinha, em um sonho, apenas ver se tudo estava bem comigo… matar um pouco daquela saudade que ficou arranhando o peito… que gesto assustadoramente bonito!

- Até breve, então, mãe…


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