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quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Concubinata


Aquela musiquinha irritante do despertador acordou-me num sobressalto… e não somente a mim. Ele pulou da cama e apanhou o telemóvel do bolso das calças, que jaziam soltas sobre as minhas roupas, na cadeira, num canto.

- Que horas são?

- Meia-noite…

Disse aquilo com um sorriso meio sem graça, a olhar-me ainda protegida pelas cobertas quentinhas e exibindo uma cara de sono, tentando focar a imagem dele, de pé, na penumbra do quarto.

- Já?

- Já! Tenho que ir…

- Uh-hum…

Ele sabia que eu não ia protestar, nem fazer um drama desnecessário. Aceitava aquela condição sem reclamar, há bem mais que um ano e sabia o que o despertador a tocar, àquela hora, significava. Era como se o conto famoso repetisse cada vez que ele vinha. O encanto cessava à meia-noite, quanto as badaladas anunciavam a hora de partir…

A silhueta conhecida, recortada contra a luz que vinha de fora e iluminava as cortinas, por trás, como num teatro de sombras, movia-se como se estivesse num tempo e espaço presos entre o sonhar e o acordar. Vestia-se com pressa, para evitar ficar muito tempo exposto ao frio do ar, tão dissemelhante daquele em baixo do edredão de penas de ganso, em que se encontrava há segundos atrás.

Aquela era para ser uma relação simples. Mas não era. Era tudo; menos simples. Pelo menos na minha cabeça…

Eu não me permitia sentir ciúmes… ou melhor: não me permitia demonstrar ciúmes, mesmo quando o sentia. Eu tinha muitas dúvidas e incertezas, que não queria deixar transparecer, com medo que ele me julgasse impertinente, dona de um sentimento descabido, já que não tinha direito sobre a vontade ou a liberdade dele.

Levantei-me e enrolei o roupão no corpo, quase sem pensar. Fui até a cozinha e abri uma garrafa de água com gás, que eu mantinha sempre fresca, por saber que ele gostava. Bebemos em silêncio, evitando olharmo-nos diretamente nos olhos um do outro.

A despedida era sempre assim: num quase silêncio tristemente consternado. Levava-o à porta, trocávamos um beijo, como se fosse o último e um abraço que beirava o desespero e que amargava o desejo, nunca expresso, de que passássemos a noite juntos, abraçados, como se não houvesse mundo maior que o nosso pequeno quarto.

Quando ele saía e eu fechava a porta, minha vidinha solitária voltava a uma rotina anormalmente normal e completamente desprovida de cores, a não ser a mesma sequência de variantes do mesmo tom frio e impessoal de sépia, que eu não sabia se realmente odiava ou não.

Naquele dia, porém, quando retornei ao quarto, não consegui dormir imediatamente. Minha cabeça começou a trazer, à tona, todas as dúvidas e meus pensamentos vinham aos turbilhões, fazendo-me questionar o que eu estava a viver nos últimos tempos… sem exceções.

 Virava-me de um lado ao outro, sem pegar no sono, por mais que quisesse desligar o cérebro e dormir. Queria desaparecer na escuridão do quarto, sem nem ao menos sonhar. E, justamente por tentar tanto, a impressão que tinha era que parecia afastar-me cada vez mais do meu intento. Não conseguia pregar olho.

Uma mistura de sentimentos resolveu assombrar-me, vindo de baixo da cama, subindo pelas paredes e pousando sobre meu travesseiro, como se fossem impertinentes demonetes, dispostos a infernizar minha noite. Por incrível que pudesse parecer, o único diabrete que não veio sentar-se junto a mim foi o da culpa…  Todos os outros, porém, brincavam com meus cabelos, minha cabeça, minha sanidade…  


Tentei os exercícios de respiração e relaxamento que conhecia, mas não consegui muito. Eu sabia que tinha de tomar uma atitude e tocar a vida adiante, senão aquela sensação estranha a incomodar-me não esvanecia. Vinha evitando pensar seriamente sobre a situação há muito tempo. Pareceu-me que minha consciência já não podia esperar mais por uma definição de vida e dava os sinais daquela evidência.

Levantei-me.

Enrolada novamente no robe, fui até a cozinha. Preparei um chá de maçã vermelha, que sabia tinha propriedades calmantes, dirigi-me à sala, sentei-me confortavelmente no meio das almofadas do sofá e deixei-me relaxar um pouco. Estava mais que evidente que minha consciência procurava um pouco de harmonia. Eu merecia paz…tranquilidade… e uma decisão…

Eu sabia que o óbvio era a única saída, por isso, era apenas uma questão de querer assumir e ir em frente.

Vinha evitando há muito tempo, porque gostava dele, dos carinhos e da atenção que recebia, da generosidade e do respeito nos gestos e da liberdade que tínhamos na relação. Não escondíamos nossos sentimentos, nem fingíamos sentir uma paixão arrebatadora ou doentia.

Mas quando estávamos juntos, éramos amantes no mais denso sentido da palavra…e não só…

A cumplicidade, o humor nas entrelinhas, os jantares acompanhados de vinho, as brincadeiras e o conforto dos braços e do corpo dele a aquecer o meu… era impossível  desconsiderar a beleza da situação, mas também a fragilidade que ela tinha.

Pus as mãos na cabeça e fechei os olhos.

- Coragem!

Eu falava comigo mesma, na esperança de convencer-me.  Encolhi-me, abraçada aos joelhos e recostei a cabeça na grande almofada…

Já não pensava mais… Caí num sono profundo.

Acordei com a luz do sol a entrar pela cortina mal fechada, sentindo dores no corpo, devido à posição em que fiquei deitada por tanto tempo. Estava atrasada para o trabalho…

Nos dias seguintes, quanto mais pensava, mais tinha certeza do que ia fazer. Às vezes surpreendia-me a pensar em nós e enchia os olhos de lágrimas, mas estava cada vez mais decidida. Teria que encarar a decisão, olhando-o nos olhos. Ia doer, mas tinha que ser feito. Era o melhor para nós dois. No fim de semana estava totalmente decidida.

A nossa costumeira noite de encontro chegou, finalmente. Desta vez ele não vinha para jantar. Eu não ia conseguir engolir nada mesmo. O destino compactuava comigo. Teríamos pouco tempo juntos.

Tentei acalmar-me. Não podia estragar o meu plano com o nervosismo. Repassei o discurso, na minha cabeça, um milhão de vezes. Estava pronta.

Quando a campainha tocou, estava já à porta, mas tive que respirar fundo algumas vezes, antes de girar a chave. Abri…

Ele estava vestido de preto. Alinhado. Quase formal. Sorridente.

Engoli em seco. Convidei-o a entrar. Ele disse, com o sorriso ainda aceso na face, cuja barba havia sido aparada recentemente:

- Vamos sair.

- O que?

Devo ter feito uma cara tão pasma, que ele soltou uma deliciosa gargalhada.

- Vamos sair. Vista um casaco, que está frio. Não pensa muito… anda comigo…

Eu obedeci. Havia sido totalmente surpreendida. Fiquei sem saber o que dizer. Ele percebeu, mas não disse nada.  Limitou-se a conduzir-me até o carro. Abriu-me a porta como um verdadeiro cavalheiro. Nossas músicas favoritas começaram a tocar, assim que ele ligou o CD player. Eu não disse nada. Apenas sorri nervosamente.

- Fica tranquila. Vamos a um sítio giro.

- OK.

Meu coração estava aos saltos. Segurei uma mão na outra, para esconder o nervosismo. Ele pousou a mão grande sobre a minha e deu um tapinha, como se tentasse acalmar-me.

Quinze minutos depois, estacionou o carro junto ao passeio, num restaurante que eu já havia falado a respeito, à beira da praia. Ele saltou, abriu-me a porta e deu-me a mão, ajudando-me a sair.

Jantamos como um casal normal, numa noite normal, na cidade… ou na praia…

Ele estava divertido, informal, descontraído. Brincava e conversava comigo, sem mencionar nenhuma razão, sem questionar nada, sem explicar nada. Parecia uma rotina a que já estávamos habituados há muito. O vinho ajudou-me a descontrair e apreciar a comida, a companhia, a noite. Do meio do jantar para frente, esqueci completamente o discurso que havia estudado. Estava semi-bêbada. Ele controlou-se, porque ia conduzir. O café, ao final do jantar, deixou-me um pouco mais desperta.

Quando chegamos à casa, já passava da meia-noite. Eu sabia que era hora dele ir-se, mas não falei nada. Ele acompanhou-me até a porta e beijou-me, de leve, os lábios.

- Precisas ir? Já?

- Não.

Desta vez, eu estava totalmente desperta. Tinha certeza que ele dissera não!

Ele sorriu, abriu a porta e entrou depois de mim. Abraçou-me e beijou-me, como se fosse a primeira vez que nos víssemos. Minhas roupas – e as dele - foram ficando pelo caminho. Quando entramos no quarto, já estávamos completamente despidos. Eu estava totalmente ruborizada…e sabia que não era somente o efeito do vinho.

Ele amou-me como nunca antes. Eu entreguei-me como nunca antes.

Uma sensação de pânico e desespero apareceu-me de repente e fez-me agarrar àquela oportunidade, como se fosse a minha última. Deixei-me levar, como uma nau, velejando por águas densas e escuras e conduzida por um capitão, que conhecia bem os mares por onde navegava. A quilha cortava as águas e singrava pela escuridão, sangrando minha alma, numa insanidade que confundia meus sentidos, deixando-me sem saber se sentia dor ou prazer…

Perdi o controle muitas vezes seguidas, enquanto ele ia e vinha a navegar-me, cada vez mais intensamente. Agarrei-me ao corpo dele e deixei-me cair num precipício de deleite, que culminou num abraço louco, num enlace de braços, pernas e pelos.

Por fim, puxou o lençol e o edredão por cima de nossos corpos, que estavam tão juntos que pareciam um corpo único de um estranho animal, com quatro braços e quatro pernas a se enlaçarem num movimento surreal. Adormecemos colados um ao outro…

Os acontecimentos da noite haviam mudado a minha atitude e eu tive que reconsiderar uma mensagenzinha, que ficava tocando sem parar, na minha mente, durante um sonho agitado, onde eu caía num poço sem fundo, sem poder agarrar-me a nada...

Uma musiquinha irritante insistiu em perturbar-me o sono. Eu não tinha muita consciência do que podia ser, até que senti uma estranha sensação de frio. Abri os olhos, pensando estar em um estado de delírio.  

- O que…

- São duas da manhã. Tenho que ir…

- Oh! Já?

- Sim.


Ele já estava de pé a vestir-se. Eu virei-me para o lado e fechei os olhos. Amanhã pensaria no que ia fazer… 

Por ora, só queria voltar a dormir…