quarta-feira, 23 de maio de 2012

12 Anos


Doze anos. Há exactamente doze anos ele entrou definitivamente em minha vida. Ainda lembro do dia em que veio, com menos de três meses de vida, um gatinho de tamanho bastante fora do comum, que me fez desconfiar de sua verdadeira idade e deixou-me meio receoso de aceitá-lo. Era um pequeno sobrevivente, recolhido nas ruas de Johannesburg e entregue aos cuidados da Sociedade Protetora. Depois das dúvidas desfeitas pelo médico veterinário do SPCA em Roodepoort, que mostrou com precisão as características físicas do bichano, resolvi admitir sua presença em minha vida, com um pouco mais de agrado e adotá-lo oficial e definitivamente.

O nome inicialmente dado, Tigger – em homenagem ao meu personagem favorito do desenho animado - foi em seguida alterado pela veterinária da clínica em Sandton City, onde vivíamos na época – que acreditava ser um erro de grafia - para Tiger e acabou ficando até hoje. Hoje reconheço que Tiger é mais apropriado que o nome com o qual queríamos baptizá-lo.

Com a decisão tomada conscientemente, não foi somente a minha rotina que teve que mudar, invariavelmente e para sempre. Abri uma grande janela na minha vida e no meu coração, pela qual ele entrou, encontrou um lugar adequado e onde, já acomodado confortavelmente, instalou-se de vez. Em menos de uma semana já estava apaixonado por ele… e nunca mais me deixei de surpreender.

Ele revelou-se um parceiro exemplar em muito pouco tempo, acompanhando-me desde a hora que levantava, de manhã cedo, até quando saía para trabalhar. Brincalhão, companheiro, trapalhão e estabanado, naturalmente curioso, surpreendentemente inteligente e criativo, revelou uma afinidade tão grande comigo, que nenhuma outra criatura jamais teve ou teria.

Ele derrubou vários pré-conceitos que eu possuía, ensinou-me uma grande porção de coisas relativas às suas preferências e sua maneira própria de se comunicar e conviver, fez-me ver a minha própria vida com outra perspectiva e despertou em mim um carinho invulgar pelos animais em geral, mas em especial e extraordinariamente pelos gatos.

Ele é meu filho, meu irmãozinho, meu guru, meu grande amigo, meu suporte, meu calmante, a rocha na qual minha vida se apoia… Viver sem ele – reconheço, sem receio nenhum - seria intolerável. É o mais genuíno significado de “lar” para mim.

É aquele para quem eu volto no fim do dia, muitas vezes cansado de uma jornada extenuante, mas sempre encontro disposição para deixar-me envolver e dedicar parte do meu tempo para que ele se sinta alimentado, confortável e amado. Sempre me recebe à porta e faz a festinha de costume. Depois de um abraço e um chamego, segue para a varanda, onde se deita de barriga para cima e pede uma massagem... que, invariavelmente, ganha.

Grande parte da minha vida em casa gira em torno dele e de seu bem-estar. Ele traz tranquilidade quando estou agitado, estimula meus dias quando estou sonolento, controla meus horários, quando esqueço deles – especialmente quando se trata das refeições, obviamente.

Ele tinha menos de dois anos de vida, quando me divorciei e, podendo ficar mais tempo com ele, somente, nosso relacionamento foi-se estreitando e nos aproximou ainda mais. Ficamos mais livres para nosso amor incondicional. Nossa relação cresceu em entendimento e tolerância e nossa comunicação entrou em estado adiantado de compreensão, com o passar dos dias. Aprendi a ser mais paciente, a prestar atenção às suas necessidades e desejos, a respeitar não somente as suas rotinas e a deixá-lo em paz quando necessitava de sossego e silêncio, mas também a tê-lo como parte essencial da minha vida.

Lembro que no dia em que o jardim da casa ficou pronto, ele parecia uma criança que havia ganho um presente tão especial, que não cabia em si de felicidade, correndo de um lado para o outro e chamando-me, na sua maneira meio desajeitada, para olhá-lo enquanto pulava de um lado para o outro, por vezes escondendo-se atrás dos arbustos recém-plantados na relva verde, outras subindo na árvore assentada no centro do terreno. Aquela euforia toda me fez ver que o investimento havia sido lucrativo, pelo menos em satisfação pessoal - minha e dele. Também foi nesta ocasião que ele se tornou mais possessivo e territorial.

Já passamos por algumas situações difíceis. Tive um grande medo de perdê-lo, quando tivemos que combater um sério envenenamento. Mas ele lutou como um bravo. Provou mais uma vez que era um sobrevivente… e dos mais fortes – um verdadeiro tigre!

Nunca foi um fardo para mim, nem quando tive que optar por um novo desafio de carreira e sair do meu país de origem pela segunda vez em minha vida. Tivemos que passar por uma necessária separação de alguns meses… longa demais, a meu ver, mas como em ocasiões anteriores, sobrevivemos a tudo que enfrentamos juntos. Fazer a viagem até Portugal havia sido uma preocupação grande, um stress a que nos submeteríamos, tendo o pobre bicho que ficar dentro de uma caixa de transporte, cruzando oceanos e céus por muitas horas, mas tudo acabou bem. Ainda bem que o trouxe, pois sem ele aqui comigo, a vida seria praticamente insuportável.


Estamos cada vez mais unidos. Temos, verdadeiramente, uma relação muito intensa, por assim dizer. Ele é uma parte essencial de quem eu sou hoje, sem dúvida nenhuma. Como disse um amigo psicólogo, somos viciados um no outro – e é a mais legítima realidade. Não tenho vergonha de dizer que sou muito protector e tenho muitos ciúmes de quem chega perto dele, mas a recíproca também é, cada dia que passa, mais verdadeira. Se pensar bem, é ele quem cuida de mim e não o inverso…

Tento fazer a leitura em seu comportamento quando este muda, pois é sinal que algo o incomoda. Ele sabe se comunicar com muita precisão. Basta observar com cuidado e fica fácil perceber sua linguagem. Desconfiado, quando percebe que estou a dar atenção demais a alguém, especialmente “on-line”, usa de seus próprios artifícios para atrair-me às suas brincadeiras. De passar várias vezes por cima do teclado do computador, a correr desgovernado pela casa e atirar-se por baixo de folhas de jornais dispostas no tapete da sala, ou sentar-se em cima do rato, de modo a impedir-me de usar o computador propriamente, ele faz de tudo.

Não dorme sem ganhar um cheiro na cabeça, um chamego, um carinho... Às vezes, acordo-me no meio da noite e vejo que está deitado comigo, com a cabeça no travesseiro e o corpo esticado ao longo do meu, como se fosse uma criança, buscando o calor em baixo da coberta. Se perde o sono, me faz vítima de sua impaciência e de sua disposição para ficar acordado no meio da madrugada. Quando estou em casa, não come sem me pedir para verificar a tigela de ração ou seu pratinho.

Eu o chamo por vários nomes, que ele reconhece, pela forma e entonação que uso quando falo. Néne, Nino, Go’dinho, Filhote, entre outros, fazem parte do repertório carinhoso de alcunhas, porém o nome oficial, dito de maneira clara e firme é, praticamente, o único que o faz obedecer.

Sempre agradeço aos céus por ele estar comigo. E só posso mesmo agradecer pelas alegrias e pelo conforto moral e a companhia sempre presente e solícita que ele tem me proporcionado. Ele exige bastante atenção, sim, mas por que não exigiria, afinal tem direitos adquiridos.

São doze anos de convívio, dos quais dez são de uma exclusiva vida “a dois”. Ele sabe que eu sou apaixonado por ele. Quando o vejo a dormir perto de mim, deitado no sofá da sala ou sobre meu peito, com seu sono tão tranquilo e tão despreocupado, me dou conta que eu já preciso muito pouco para ser feliz. Se para ele basta um cantinho confortável, um prato de comida e um pouco de água limpa e fresca, para mim esses pequenos luxos também tem sido suficientes, se estiverem associados ao carinho e atenção de alguém – ou alguma criatura - que se importe.

Ah… e música... Assim como para mim é essencial, para ele existe uma afinidade especial, que pode ser considerada um capítulo à parte. Quando percebi que ele a tinha, resolvi explorá-la, testando sua reacção às melodias. Descobri que ele tem preferências bem definidas e deixa bem claro quando gosta, aproxima-se e fica a ouvir, quieto. Quanto mais harmoniosas, mais relaxado ele parece, desde que estejam a tocar em volume tolerável para ouvir.

A forma como me observa, às vezes, deitado no sofá ou no tapete, ou fazendo gracinhas para me arrancar um sorriso, faz-me parar o que estou a fazer e me deitar ao seu lado, ou simplesmente olhar e ver como ele parece estar tão confortável e feliz por estar ali, comigo, naquele momento em que desfrutamos a companhia um do outro, sem interferências, sem preocupações e sem quaisquer tipo de promessas ou segundas intenções. Recosto, levemente, minha cabeça sobre seu corpo e ouço seu ronronar tranquilizador, levando-me a crer que não precisa existir muito mais que esta despretensão em nossas vidas.

Do jeito que somos apegados um ao outro, o convívio se tornou uma grande e bem-vinda dependência. Ele minora a possibilidade de sentir solidão e alegra os momentos em que estamos juntos. Eu, por meu lado, faço-lhe as vontades e cuido para que ele tenha o que precisa, que nem é tanto assim, além de sua exigência de atenção.

Sei também que o destino pode me trazer surpresas inesperadas, pela idade que ele já tem, apesar de não a ostentar - nem pela aparência, nem pela actividade e agilidade que ainda possui. A inteligência parece haver aumentado com o tempo, assim como o seu poder manipulativo - o que me diverte, mas não me engana. Sou condescendente quando necessário ou quando quero.

Não tenho medo do futuro, nem temo pela tristeza, nem pelas saudades que com certeza deverei sentir quando ele se for para sempre da minha vida. De todas as formas, tento me preparar emocionalmente para o que vier, sem deixar de prover-lhe o melhor que eu possa e que ele mereça. Vou aproveitar da melhor maneira possível o que tiver, sem restrições emocionais e confiando que podemos ter, ainda, um longo, confortável e salutar tempo juntos. Só posso pensar no melhor, nada mais… e viver com intensidade, enquanto puder… Com toda certeza…

Neste momento, aqui sentado ao meu lado, sobre a mesa, com seus olhos inquisidores e sua presença forte, mas confortante, espera a hora da refeição – que, diga-se de passagem, já passa um pouquinho e ele veio me lembrar da falha no nosso esquema. Como se soubesse que me refiro a ele, o esperto gato se curva e me saúda com a cabeça, ronronando baixinho e esperando que lhe dê um “cheiro”, costume que inventou para ganhar mais atenção e me fazer sorrir...

Ao ouvir-me dizer “vamos lá, então”, salta da mesa com um grunhido de satisfação e se dirige, ligeiro, à cozinha, onde o pratinho vazio sobre o pequeno tapete aguarda uma pequena porção de atum de lata, que ele simplesmente adora.

Esta despretensão é, realmente, uma das coisas mais sublimes que há, concluo, com carinho, enquanto olho-o a deliciar-se, concentrado e em quase silêncio, com as orelhas a se moverem instintivamente, como radares atentos aos mínimos ruídos à sua volta. Ele me ouve aproximar e pára, por um instante, levanta discretamente a cabeça e espera por outro “cheiro”, a ronronar de satisfação, fazendo-me sorrir da percepção extraordinária e controle de ambiente que ele possui…

1 comentário:

  1. Uma pequena homenagem aos doze anos de convívio com meu pequeno camarada. Um tributo à paz que ele me traz...

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