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terça-feira, 28 de agosto de 2018

As Pedras Grandes (Parte 1)



- Como assim, pedras grandes?

- Itá, em Tupi-Guarani, significa pedra e gûasu, significa grande…

- Foram os índios que deram esse nome?

- Não sei ao certo, mas faz sentido. O mais engraçado é a lenda local.

- Que lenda?

- Das bruxas…

Seu interesse aumentou.

- Conta, vai. Quero saber a lenda.

- Diz que as bruxas da ilha queriam fazer uma grande festa e escolheram aquela praia por ser a mais linda da região. Convidaram todos os seres fantásticos…

- Quem eram estes?

- Os lobisomens, os vampiros, a mula sem cabeça e, até, o Curupira, Boitatá e todos os outros seres do folclore local…

- Uau!

- Mas não convidaram, de propósito, o diabo.

- Por quê?

- Porque o diabo cheirava mal, a enxofre e, porque, na sua arrogância de superioridade, o bicho sempre fazia as bruxas lhe beijarem o rabo, para demonstrar submissão a ele.

- Uff! Que nojo!

- Pois é.

Dei uma gargalhada e continuei. Eu adorava a plateia de uma pessoa só.

- Quando a festa estava em alta e todos se divertiam a valer, adivinha quem aparece, de surpresa e muito irritado, a trovejar sua ira desaprovadora…

- O diabo?

- Exatamente. Ele estava muito enfurecido mesmo e, para castigar as bruxas, por terem deixado de lado sua majestosa figura, lançou uma maldição e transformou-as em pedras… grandes… que ficaram presas ao local, desde então.

- Oh!

- Por isso, o nome do lugar é justamente este: Itaguaçu, ou pedras grandes.

- Isso não é verdade, é?

- É uma lenda… É mitologia. Claro que acredita quem quiser, mas é uma história engraçada e interessante.

Ouvi um trovão. Aparentemente teríamos chuva naquela noite quente.

Com o clarão dos raios, seus olhos ficaram meio arregalados, assim meio perdidos, como se estivesse a imaginar a história, em detalhes. Deixei que sua imaginação voasse solta.

Outro raio. Aquele caiu mais perto, pois o estrondo foi maior e o tempo, entre o raio e o trovão, muito curto. Lembrei das aulas de ciências, na escola.

- Vamos entrar. A chuva não tarda.

- Vamos.

Entrou com pressa, como se estivesse com medo. Eu ri.

Os trovões continuaram e em pouco tempo tivemos uma tempestade de verão, daquelas poderosas. Eu, para falar a verdade, gostava das tempestades de verão, pois elas limpavam o ar e refrescavam a terra.

Um clarão, mais forte que os anteriores, foi seguido de um estrondo muito forte. Aquele caiu muito próximo de nós e levou a energia eléctrica da rua inteira. Provavelmente havia atingido um poste, ali na redondeza. Já não era tão cedo, por isso decidi que iria para a cama, ao invés de esperar que a energia voltasse. Pela manhã, já estaria tudo normal.

Adormeci quase de imediato, assim que deitei a cabeça no travesseiro. Não pensava que estivesse com tamanho cansaço.

Tive um sonho estranho, com as pedras grandes da praia. No meu sonho, uma das pedras havia sido atingida por um raio e havia aberto ao meio. A rocha era oca e tinha o formato de uma pessoa escavado por dentro da mesma. Achei aquilo muito peculiar. Eu ainda examinava o interior da pedra, quando alguém, atrás de mim, disse:

- Esperei tanto tempo por este momento.

Eu virei-me e vi aquela mulher muito magrinha, vestida de negro, com os cabelos brancos desalinhadamente presos por um lenço de cabeça, também negro. Lembrava uma daquelas figuras eu havia visto, quando criança, de uma carpideira. A pele era tão enrugada, que parecia um pergaminho.

- Qual momento?

- Não foi justo. Não foi nada justo.

Ela repetiu a frase, sem me responder, mas apertou os olhinhos escuros, como para ver-me melhor. Ela levantou a esquelética mão e tocou-me a face. Seus dedos eram assustadoramente frios.

- Não foi nada justo. Não foi, não.

Ela balançou a cabeça e virando-se, começou a caminhar pela praia, na direção oposta à minha casa. Eu ainda a ouvia murmurar aquela frase estranha, enquanto ia-se embora, absorta em seu mundo próprio e a balançar a cabeça, de forma desconsolada, com o corpo levemente curvado para a frente.

- …Nada justo… nada justo…

***

- Tive um sonho estranho.

- Eu também…

- Deve ter sido por causa da conversa de ontem e da tempestade.

- Pois…

Seus olhos pareceram viajar. Devia estar a lembrar-se do sonho.

Pegou a caneca de café recém-passado e foi até a varanda, a observar a praia. Ficou por uns minutos a olhar numa única direcção, como se observasse, atentamente, algo que se passava. Eu fui até ao seu lado e olhei na mesma direcção.

Um grupo de homens, ao longe, parecia ocupado com algo na beira da água. Eles estavam de pé, formando um círculo, à volta daquilo que eu julguei ser um animal morto, provavelmente arrastado pelo mar até a praia, depois da tempestade da noite anterior.

- Deve ser algum animal, trazido pela maré.

- Pois. Mas não é para aquilo que eu estou a olhar. Olha mais adiante, um pouco, aquela figura atrás da outra rocha, como se estivesse a esconder-se dos homens.

- Onde?

Apontou o dedo para a área atrás de uma das grandes pedras, justamente aquela que tinha o formato mais humano, com uma cabeça, formada por uma pedra redonda, que jazia em cima daquela maior, que parecia constituir o corpo.

- Lá!

Por detrás da grande rocha, estava uma pessoa, meio encurvada e vestida com roupas escuras. A impressão que tinha era que estava a esconder-se dos homens, por algum motivo. O que tornava a figura mais estranha era a semelhança com a personagem com a qual sonhara na noite anterior. Mas minha surpresa ainda estava por tornar-se maior, a partir do momento em que ouvi:

- Parece com aquela velha que eu sonhei na noite passada…

- O quê?

Como seria possível que nós dois tivéssemos sonhado com a mesma personagem, na mesma noite?

- A sério? Eu também sonhei com uma figura assim…

- Isto é tudo muito estranho! Ou, então, é uma grande coincidência. Vamos até lá!

- Vamos!

***

- Algo não está certo.

- O quê?

- Não sei. Sinto uma tristeza tão grande…

- Ainda tens o amuleto?

- Sim. Por quê?

- Joga fora. Atira-o ao mar.

- Mas ela disse…

- Não interessa o que ela disse. Joga-o fora. É isso que te está a influenciar. É o poder da sugestão.

- Nós a ajudamos e ela deu-mo de presente. Não posso fazer isso.

- Então eu faço. Foi um presente envenenado, isso sim. Ela encheu tua cabeça de sandices.

Arranquei-lhe o amuleto da mão e, indo até a beira d’água, atirei-o mar adentro. Pela força que eu usei, ia ser praticamente impossível resgatá-lo, se por algum motivo quisesse. As águas da baía estavam calmas e o facto de atirar o objeto para além da zona de formação das ondas, iria dificultar qualquer busca, se houvesse, mais ainda. Voltei para dentro, com um ar de satisfação estampado no rosto.

- Não foi justo. Não foi nada justo…

- O quê?

Olhou-me de uma maneira muito estranha, como se uma possessão tivesse tomado conta de seu corpo. Balançou a cabeça de forma desconsolada, olhando através de mim, com o corpo levemente encurvado para a frente.

- Nada justo… nada justo…

***



terça-feira, 29 de dezembro de 2015

A História


- Conta a história outra vez. Por favooooor.

Olhei-a com autêntico carinho, mais uma, entre tantas milhares de vezes, desde que a conheci, recém-nascida. Parecia tão frágil e, no entanto, provou-se tão forte. Quando queria algo, ela pedia ‘por favor’, esticando a vogal da última sílaba, sabendo que ia ter um efeito irresistível sobre mim, que nunca recusava-lhe nada. Aqueles olhos grandes e curiosos brilhavam de excitação, na antecipação da história que ia ouvir, mais uma vez. A boca sempre rosada e sorridente, os cabelos claros e caindo em cachos pela cabeça tão bem desenhada, davam-lhe um ar angelical e absolutamente adorável. No dia em que foi-me dito que eu seria pai, senti-me o homem mais feliz do mundo, numa emoção espontânea, como nunca havia sentido antes. Ela era a minha primeira e única filha. Era, definitivamente, a dona do meu coração. Ponto final. 

Nos últimos tempos eu havia mudado bastante. Ela continuava a ser aquela criança adorável e ia, sempre, a meu ver, sê-lo. Eu, porém, tornara-me um homem amargo e descrente de tudo que não pudesse ser comprovado por factos. Era um cientista quase niilista, muito longe do crente que eu, alguma vez, fora, na minha pré-adolescência. Eu aprendera a acreditar somente em evidências e em provas cientificamente atestadas. 

Para ela, entretanto, eu contava histórias… Contos e alegorias. Coisas que faziam sua imaginação viajar para além dos horizontes conhecidos e acreditar em sonhos e fantasias, com o coração de criança que ela sempre teria. 

Daquela vez, porém, eu decidira contar a mesma história, de uma maneira diferente, mais próxima da realidade, preparando-a para ter uma mente mais crítica, quando o tempo de ser científica chegasse, afinal. 

- Vem até a varanda comigo. Vou mostrar-te uma coisa.

Ela saltou da poltrona, onde estava sentada e veio até a varanda comigo. A noite estava clara e o céu estrelado. Perfeito para o que eu queria mostrar-lhe.

- Eu gosto das estrelas. Onde estão as Três-Marias? 

Eu apontei para as estrelinhas alinhadas acima de nossas cabeças. 

- Estão lá. Vês aquela estrela grande, bem à frente delas? Aquela é Sirius, a estrela que mais brilha nesta época e que inspirou a história. As Três-Marias, no outro lado do mundo, são chamadas de Três-Reis. Sabes porquê?

- Não. Por quê? 

- Porque os antigos precisavam de uma grande história, para explicar as coisas que não conseguiam compreender e, assim, faziam associações com o que viam, inventavam uma narrativa convincente, que contavam uns para os outros, passando de uma geração à outra. Depois de uns tempos, já ninguém questionava. Criava-se um mito que passava a ser parte da vida e que todos aceitavam, sem questionar as origens… 

- Hummm… Acho que entendi… 

Ela fez carinha de quem percebia, mas não sei quanto daquilo era verdade. Talvez, em sua cabeça, aquilo fosse a explicação que ela quisesse, mas que não compreendia ao todo. Ela queria ouvir a história, fosse de que jeito fosse, por isso deixava-me viajar nas palavras…

- Pois bem, no dia 22 de Dezembro o sol está no seu ponto mais baixo no horizonte e, por isso, o Inverno começa neste dia, que é chamado de Solstício de Inverno. É a noite mais longa do ano e, portanto, o dia mais curto. Os antigos tinham medo que aquela noite durasse para sempre e que ela vencesse o dia, por isso faziam rituais, onde acendiam velas, faziam fogueiras, enchiam as casas e as ruas de luz, para lutar contra a escuridão. Quando o dia nasce, eles descansam, pois o sol é o salvador, a fonte de vida e de luz.

- Hummmm… 

Eu queria manter o interesse dela na história, por isso continuei.

- Naquela noite, as três estrelinhas alinham-se com Sirius, como se estivessem seguindo aquela estrela mais brilhante e o conjunto aponta na direção onde o sol estará. Entendeste o significado?

Ela olhou-me, meio incerta.

- Pensa no sentido das palavras: os três Reis seguem a estrela mais brilhante, para chegar até onde o Salvador nasce. Na verdade, o sol permanece naquela posição por três dias e, no dia 25 de Dezembro, move-se um grau para cima, recomeçando a trajectória de volta, como se renascesse. Por isso o dia do nascimento é celebrado naquele terceiro dia do Solstício. 

Ela olhou-me, fascinada. Os olhos grandes brilhavam, sinalizando o interesse a crescer dentro dela. 

- Então está certo. O dia 25 de Dezembro é o dia do nascimento do menino…

- Está. Era o dia perfeito para celebrar o nascimento do Salvador. Mas já era festejado por cerca de mil e duzentos anos, antes de Cristo! 

Ela arregalou os olhos e pôs a mãozinha na boca. 

- Oh! Como podia?

- O ritual é bem mais antigo que o que conhecemos. Naquele mesmo dia era comemorado o nascimento de um menino-deus chamado Mitra. Haviam outros, que eram festejados da mesma maneira, mas o culto a Mitra foi o que mais se aproximava daqueles que foram adotados pela igreja romana, que copiou e acolheu os mesmos. O objetivo era não criar conflitos com os pagãos persas e romanos e seus rituais e também para unificar as religiões do império, sem chocar ninguém, mantendo a tradição do nascimento do “Sol Invicto”, que foi como o dia ficou conhecido, quando o decreto que instituía a criação da igreja católica foi oficializado. 

- E o Papai Noel? 

Eu ri. Ela sabia conduzir a conversa. 

- Existem várias versões, envolvendo São Nicolau, por ser um homem caridoso, que cuidava dos pobres e das crianças necessitadas, distribuindo pão e oferendas. É a mais tradicional e também a mais reconhecida, mas a que eu mais gosto é a outra versão, bem mais antiga.

- Eu sei. É a que eu mais gosto também. 

- Menina esperta. Percebes como é interessante saber sobre os ritos de passagem dos rapazes nórdicos… 

Ela deu uma risada e apertou as mãozinhas. Eu sempre a via como um anjo a proteger-me e fazer-me sentir melhor. Eu continuei a contar a história, porque sabia que era onde ela queira que eu chegasse, com a conversa. Todos os anos nós fazíamos a mesma coisa, como se fosse um ritual só nosso.

- O pinheiro era a única árvore que permanecia verde durante todo o inverno. Era comum, nos três dias do solstício, que os xamãs, homens sábios e especialistas em alquimia, rituais mágicos e de cura das aldeias vikings se reunissem sob o pinheiro. Eles acendiam velas nos ramos das árvores, faziam pedidos e desejavam que luz vencesse a escuridão. Percebes a ligação?

Ela apressou-se a fazer que sim, com a cabeça. Os olhos pareciam estrelas, de tão fulgurantes.

- Eles então escolhiam um rapaz com idade de passagem da adolescência para a idade adulta. Ele tinha que ser forte e destemido, para ir à caça de um urso branco, que representava a força viking. A intenção era caçar o animal e voltar, usando a sua pele vestida sobre o corpo. Às vezes ficava muitos dias e a barba crescia e ficava coberta de neve. Como o inverno era muito rigoroso, ele usava a parte da pele branca virada para dentro, de modo a manter-se aquecido. O lado de fora da vestimenta, nada mais era que a parte de dentro do urso, ainda vermelha de sangue, que avistava-se de longe, quando o jovem homem retornava, vitorioso, cumprindo o ritual de passagem. 

- Ugh! 

Ela fez uma carinha estranha e olhou-me. Eu ri e abracei-a. A história estava contada, mais uma vez, entre tantas outras, nos últimos anos, para sua satisfação e fascínio.

A noite estava calma e fresca. Nós dois ficamos, sentados na varanda a olhar o céu, acima de nós, quietos, por um longo tempo. Ela deitou-se no banco de madeira, protegido por umas fofas almofadas e aninhou a cabeça no meu colo.

- Pai?

- Uhn?

- Eu sei que tu não gostas muito desta época, porque traz lembranças tristes, mas eu adoro o Natal. 

- Eu sei, meu amor. Eu sei. O Natal e todos os outros dias do ano só são lindos porque tu existes, minha vida! 

Ela sorriu e ficou a olhar as estrelas, em silêncio, até adormecer, ali mesmo, deitada no meu colo. Eu olhei para ela e duas lágrimas quentes, rolaram pelas minhas faces. Eu questionei-me, em silêncio.

- (Como uma criatura tão pequena e tão frágil pode, ao mesmo tempo, ser tão forte e tão adorável?)

Ela era minha referência e a razão de eu querer ser forte, sempre. 

No fundo, eu sabia que ela era jovem demais para lembrar daqueles detalhes todos das histórias que eu contava e ia sempre pedir para contá-las muitas vezes, nos anos seguintes. 

Eu, porém, estava muito enganado. Ela nunca esqueceu daquela noite, nem das histórias que eu contei…