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sábado, 18 de março de 2017

Olhares (Parte 1)


Eu não gosto de ocasiões sociais. Não gosto de festas, nem de ‘cocktail parties’, muito menos de ‘happy hours’. Quando muito, tolero um jantar entre amigos, mas com poucas pessoas. O ruído de muita gente a falar, especialmente se for em volume alto, me incomoda. As exceções existem, mas são escassas.

Numa destas raras ocasiões, estava num ‘vernissage’ de pintura, convidado por um dos artistas da coletiva, um amigo de longa data, que participava de uma mostra, pela primeira vez, depois de muita insistência dos conhecidos. Ele não achava que sua arte estava madura para mostrar ao público, mas todos insistiam que eram obras muito boas e ele acabou cedendo. Eu tive que concordar que ainda havia um longo caminho para aquilo que ele poderia chamar de “maduro”, mas eram melhores que muitas das outras obras à mostra naquela coletiva.

Aceitei o convite para dar-lhe o apoio que achava necessário aos artistas novos e, também, para quebrar meus próprios tabus e ideias pré-concebidas a respeito de sair de casa, num dia de semana à noite. Já havia decidido que ia ficar apenas o tempo suficiente para ser notado pelo meu amigo e dar-lhe o suporte público, mas sabia que ele estaria bastante ocupado com os convidados e não ia ficar chateado se eu saísse cedo. Ele sabia que minha presença naquele tipo de eventos já poderia ser considerada uma raridade, por isso não ficaria melindrado, se eu fosse para casa antes do fim do evento.

Passei os olhos num apanhado geral ao grupo que ali estava reunido, a andar de um lado para o outro, descontraidamente, a fingir que gostavam do que viam ou que percebiam de artes. O vinho era de boa qualidade, mas nada excepcional. Os canapés estavam bons, mas sem serem luxuosos ou sofisticados demais. Percebia-se que o objetivo do ‘catering’ não era manter os visitantes atentos ou ansiosos por comer, mas apenas servir para criar o clima de uma certa formalidade.

Sentia-me deslocado, como quase sempre. Preferia estar em casa a ouvir música, a ler, ou, simplesmente a fazer festinhas ao gato. O que uma pessoa não faz para apoiar um amigo…

Alguém esbarrou em mim e fez-me derramar um pouco de vinho branco na manga do casaco. Um mirrado pedido de desculpas e uma saída estratégica seguiram-se ao meu desajeitado ‘tudo bem’. Pousei o copo numa mesa e tratei de ir à casa de banho, a fim de lavar, rapidamente, o vinho do casaco, para não fazer mais estrago que já havia feito.

Na volta, decidido a deixar imediatamente o local, procurei por meu amigo artista, a fim de despedir-me, mas ele estava ocupado com um grupo de mulheres que riam à solta e nada discretamente.

- Gralhas!

Pensei alto e entre os dentes.

Por algum motivo meus olhos foram atraídos na direção da escadaria que levava ao mezanino, onde haviam alguns outros quadros expostos. Um homem vestido de preto olhava na minha direção e parecia sorrir. Eu não tinha certeza se era para mim, mas um arrepio subiu-me pela espinha. Ele tinha um copo de vinho tinto na mão e levantou-o, como se brindasse comigo. Olhei para trás, mas não havia ninguém por perto que estivesse a olhar na mesma direção. Ao voltar-me novamente, não mais vi o tal convidado. Procurei, com os olhos, mas não o encontrei.

- ‘Coisa mais estranha’, pensei. ‘Por que me olhava assim? Isso não pode ser normal. Devo estar mesmo bêbado.’

Saí logo em seguida.

Minha perturbação não durou muito. A caminho de casa, já não pensava mais naquele pequeno acontecimento. Em muito poucos minutos esquecia o incidente e voltava ao meu estado normal. Eu também não gosto de conduzir e o trânsito deixa-me tenso, por isso tento não pensar muito, quando estou no carro.

Já em casa, voltei à minha condição normal de eremita. Livrei-me das roupas formais e vesti um pijama, disposto já a preparar-me para deitar. Quase esquecia que a manga do casaco precisava secar direito, antes de ser pendurado de volta no armário, por isso, assim que escovei os dentes e preparei-me para dormir, voltei à sala e deixei-o sobre o encosto de uma cadeira.

Adormeci tão rápido que nem tive tempo de pensar em mais nada. Nem vi quando o gato subiu na cama e deitou-se aos meus pés…

***

Ele levantou a taça de vinho tinto e sorriu. Eu tentei desviar o olhar, mas não consegui. Havia algo em seu olhar que me deixava intrigado e, ao mesmo tempo, assustado. Ele moveu os lábios, como se a dizer algo, mas não ouvi nenhum som. O que ele tentava dizer-me? Seria importante? O que ele quer de mim?

Alguém passou na minha frente e aquela distração quebrou o contato visual. Quando voltei o olhar, ele já não se encontrava.

Déjà vu…

- ‘Isso já aconteceu antes’, falei em voz alta.

- Mas não desta forma…

Dei um salto. Não esperava que alguém me ouvisse.

O homem que estava ao meu lado ofereceu-me uma taça de vinho tinto, sem dizer mais nada. Eu tomei a taça e levei aos lábios, mantendo o contacto visual com ele. Ele sorriu de uma maneira estranha. Eu percebi que havia algo errado e olhei para o conteúdo da taça, que caiu da minha mão, assim que percebi tratar-se de outra coisa…

O denso e rubro sangue que estava nela respingou pelo chão e nas minhas roupas, assim que o cristal partiu-se em milhões de pedaços, contra o granito escuro do piso...

Acordei sobressaltado, com um grito, suando e ofegante como um animal depois de uma longa corrida.

- Merda! Foi um sonho…

Não havia pensado em como aquele incidente havia deixado uma marca tão grande no meu subconsciente, voltando à tona durante meu sono...

***

Minha volta à rotina, já de amanhã, tratou logo de manter minha mente ocupada com o trabalho e meus afazeres normais, pelo menos até a noite. Às vezes, porém, quando distraía-me, tinha a sensação que via aqueles olhos a espreitarem de algum lugar, que eu não conseguia realmente distinguir, mas cheguei à conclusão que não passava de uma mera impressão… peças que a mente prega na gente…

Na saída do trabalho, fui até a estação de metro, pois nunca ia ao centro de carro, pelas dificuldades de achar vagas e, também, devido ao custo para estacionar. Era muito mais prático ir de metro. O sistema funcionava bem e, além de ser prático, era também bastante eficiente e barato.

Desci as escadas e fui para a plataforma, que já estava bastante movimentada, àquela hora da tarde. É engraçado ficar a observar os transeuntes entrarem e saírem dos veículos e imaginar para onde vão e de onde vêem, com suas histórias, seus problemas, suas alegrias, seus desejos…

Estava distraído a olhar um casal que conversava animadamente à minha frente, quando o veículo chegou na plataforma do lado oposto. Minha atenção foi naturalmente direcionada para aquele lado e fiquei a olhar as pessoas a movimentarem-se até o grupo de vagões partir, tão rapidamente quanto veio. A figura vestida de negro a olhar para mim, com uma fixação tão evidente, causou-me um óbvio desconforto. Fiquei sem ação por uns segundos, até que percebi que ele fez uma vénia com a cabeça e mexeu os lábios como se estivesse a dizer-me algo. Franzi o cenho, sem responder ao cumprimento. 

O vagão do metro parou à minha frente e o foco da minha atenção foi logo desviado. Entrei no veículo e olhei pela janela, mas já não vi ninguém na plataforma oposta. Eu não havia-me enganado. Ele esteve lá e eu já sentia-me sendo perseguido.

- Que droga! Outra vez…

A moça, de pé ao meu lado, riu-se, ao ouvir-me e perceber que falava sozinho.

***

- Por que tu usas esta camisa horrível para dormir?

- O quê? Como é que…

A voz do outro lado da linha telefónica era rouca, mas parecia tranquila, quase provocadora, como se o interlocutor quisesse somente mostrar que sabia do que falava, mas não queria causar um desnecessário furor.

As luzes estavam apagadas e não lembrava de haver vestido aquela peça de vestuário antes de chegar ao quarto, já pronto para deitar. As cortinas estavam fechadas, por isso não compreendi, de imediato, como alguém poderia saber que eu estava vestido com aquela camisa listrada de várias cores, que eu mesmo admitia ser ridícula, mas era confortável para dormir, afinal.

Não acendi as luzes. Virei-me para o lado e procurei algum brilho estranho, como o que delata uma câmara escondida, mas não vi nenhum. Como é que aquela criatura sabia o que se passava dentro do meu quarto. Sentei-me na cama, sem acender as luzes. O gato pulou dos pés da cama, onde estava aninhado e olhou-me a caminho da porta, iluminado pela parca claridade do telefone que eu segurava.

- Não deixes que o gatinho fique sem água. Ele deve ter sede.

- O quê? Que brincadeira é essa?

O sinal de que a linha foi desligada seguiu-se e, para minha surpresa, o gato voltou ao quarto, mas não deitou-se. Fez menção de sair, como fazia quando queria alguma coisa e eu segui-o até a cozinha. Ele parou e olhou-me, sentando-se sobre o tapete azul, onde a tigela de água jazia, vazia, para meu completo espanto.

Enchi aquela e, também, um grande vidro vazio de café solúvel que sempre mantenho cheio de água, em cima da pia, perguntando-me como é que haviam ficado vazios, se ninguém, a não ser eu, tinha acesso ao apartamento. Sacudi a cabeça, como se a afastar um mau pensamento e voltei para a cama, disposto a não mais pensar naquilo, ou não conseguiria dormir.

Seis minutos depois de deitar-me, não exatamente para minha surpresa, o telefone tocou outra vez…

Ouvi a respiração pesada, do outro lado da linha. A mesma voz rouca falou, com tranquilidade, mas firmemente.

- Espero haver-te convencido que temos coisas a conversar. Devemos nos encontrar amanhã à hora do almoço. Não faltes…

- Mas, onde?

- Não te preocupes com isso…


***