sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Da Imagem No Espelho (Parte 1)


Parado no hall, em frente à porta dupla de metal cinzento, eu tinha os pensamentos tão longe quanto pudessem estar, enquanto acompanhava distraidamente, com os olhos, o display a mostrar a contagem regressiva dos andares por onde o elevador passava.

Em dias normais evitava usar aquela caixa, que eu considerava minúscula, fria e claustrofóbica, puxada apenas por alguns cabos de aço, num sombrio fosso rectangular, para subir até o escritório em que trabalhava. Costumava subir os quatro andares a pé, para garantir o mínimo de exercício diário, além de me sentir bem mais à vontade ao utilizar as escadas.

Os últimos dias vinham transcorrendo extremamente corridos no escritório e eu já demonstrava visíveis sinais de cansaço. Começara a reconhecer que estava à beira de um colapso físico e mental, quando os sinais de uma conhecida enxaqueca começaram a se manifestar. Não por preguiça, mas por conveniência, decidira, desta vez, usar o meio mais fácil, apesar de sentir-me bastante inseguro e desconfortável dentro dele.

Com um som característico, a porta abriu-se à minha frente. A parede do fundo, oposta à entrada do elevador era coberta por um espelho que ia do teto à meia parede, em oposição ao restante do compartimento, de aço inoxidável escovado - moderno, fácil de limpar, mas completamente impessoal.

Minha primeira reacção, antes de entrar, foi de olhar ao espelho, instintivamente, como se verificasse se estava apresentável. Mas, para minha surpresa, outra visão chamou-me a atenção, quando meus olhos fixaram-se na imagem reflectida.

Parada em pé, por trás de mim, havia uma mulher morena, trajando um vestido negro muito justo ao corpo bem formado. Os cabelos negros, presos em um coque ao alto da cabeça, por dois palitos laqueados em preto, decorados com pequenos detalhes coloridos, salpicados em branco, vermelho e dourado, em estilo japonês, fulgiam à luz que entrava pela janela acima da parede do hall de entrada.

Até aquele momento, talvez por estar absorvido demais em meu pequeno mundo e em meus próprios problemas, não havia sequer tomado consciência de que não estava só. Com um passar rápido de olhos avaliei a imagem reflectida ante meus olhos. A mulher era bela e extremamente sensual à primeira vista. Tentei não fixar o olhar, por tempo demasiado longo, para não parecer pouco polido, mas notei que ela me observava com atenção, como se eu fosse um produto exposto numa vitrina. O tecido do vestido acentuava suas curvas e um generoso decote atraía meu olhar, magneticamente e sem decoro nenhum. Apesar daquela análise preliminar acontecer em nada mais que umas poucas fracções de segundos, o tempo registado em minha mente pareceu-me longo suficiente para captar aquela série de pequenos detalhes. Senti-me como naquelas cenas em câmara lenta dos filmes românticos de décadas passadas. Adiantei-me e entrei, sem hesitar, como já era costume, esperando cumprimentá-la assim que estivéssemos a sós.

A porta, porém, logo fechou-se às minhas costas, deixando-me um pouco decepcionado por ter ficado sozinho, já que ela não fez menção de entrar. Talvez o tempo em que fiquei hesitante em entrar tenha sido longo demais, afinal. De uma coisa eu estava absolutamente certo: nunca antes a havia visto por ali, pois uma mulher daquelas não era de passar despercebida. Num gesto de gentileza estudada e com uma pontinha de esperança a cobrir minha decepção, apertei o botão para abrir a porta, pois achei que a mesma fechara rapidamente demais e a deixara sem tempo para entrar.

Ao abrir-se vi que já não havia mais ninguém no hall, onde antes ela estivera. Comecei a desconfiar que o tempo estava contra mim.

Um homem de meia-idade, trajando um distinto e impecável blazer em tweed cinza escuro sobre as calças em tecido liso, no mesmo tom formal, entrou às pressas, enquanto eu escondia meu desapontamento, como um adolescente contrariado, olhando para minhas próprias mãos.

Desci no quarto andar, onde fui logo engolido pelo stress do quotidiano, pois antes de chegar ao meu posto de trabalho, meu chefe já me aguardava com uma série de planilhas a revisar, com uma sequência adicional de colunas de cálculo estatístico. O dia correu normalmente e sem grandes surpresas, no escritório de Contabilidade, onde o trabalho era basicamente previsível e repetitivo, como os minutos que somam-se para completar as horas. Uma rotina bicromática e monótona, como se fosse uma frase sem graça, escrita a giz branco num quadro negro na parede de uma escola de subúrbio.

O incidente do elevador fora totalmente esquecido, em meio aos números e fórmulas das planilhas de cálculos, no decorrer das longas e extenuantes horas do expediente no escritório. O único acontecimento diferente naquele dia fora um breve telefonema de uma amiga, convidando-me a sair e tomar um café, logo depois de sair do trabalho.




A pequena mulher de cabelos loiros, em corte curto, cuidadosa e propositadamente desalinhado, sentada a fumar tranquila e confortavelmente à minha frente, na esplanada do Café, não muito longe de onde trabalhava, sorria naturalmente enquanto contava acontecimentos corriqueiros de seu dia. Seus inquisidores olhos, de um tom interessante de azul-cobalto, pousavam sobre mim de uma maneira divertida, com um interesse dissimulado, que eu fingia não perceber.

Éramos algo próximo a bons parceiros, que desfrutávamos de uma intimidade natural. Nos bons tempos, costumávamos ir ao cinema, teatro, jantar juntos. Nossos encontros eram mais ou menos frequentes, mas careciam do calor de um relacionamento feito para aprofundar-se em alguma raia de romance – mais por minha culpa que dela. Fazíamos boa companhia um ao outro - na pior das hipóteses – o que nos bastava naquele momento... ou, pelo menos, era o que eu considerava.

O agradável aroma do café espresso, denso e forte, preenchia o ar, enquanto discorríamos em um pouco de conversa fútil, comum e sem qualquer profundidade, contando nossos problemas do dia-a-dia, naquele nosso breve encontro de fim de tarde de Outono. Marcamos outro contacto, para uma próxima ocasião e nos despedimos, como de costume e sem demonstração de excessivo calor. Eu voltava à realidade. Preocupei-me com o pão e o café com leite “nosso de cada dia” e fui-me pela vida afora, de volta à casa e à proteção reclusa da minha pequena concha.



Sonhos sempre constituíram materiais de interesse para mim, pois os considerava, na melhor vertente Jungiana, que traziam importantes mensagens do meu subconsciente. Por um bom tempo estudei-os, lendo as teorias dos meus autores favoritos, em vários livros especializados.

Alguns dias haviam passado e, numa certa madrugada, tive a sensação que algo tocou-me, de leve, a pele do pescoço. Acordei meio em sobressalto, crendo ter sido tocado por algum insecto, já que não havia outra criatura viva no apartamento. Acendi as luzes e procurei, em vão, a fonte do incómodo. ‘Devo ter sonhado’, pensei, ao voltar para a cama, adormecendo logo em seguida. Se fora um sonho, não consegui lembrar-me de muitos detalhes do mesmo mais tarde.

Algumas semanas depois, sentindo já o frio de inverno e devidamente aconchegados do lado de dentro do Café onde costumávamos nos encontrar, decidimos ir à casa, preparar algo mais substancioso para comer. Uma garrafa de vinho tinto foi aberta, para bebericarmos enquanto eu preparava uma pizza, a solução mais rápida, aceite de comum acordo, naquele momento.

Por algum motivo inexplicável, deixei-me levar por uma demonstração de afecto que recebi, enquanto aguardávamos a refeição ficar devidamente assada. Talvez o álcool tenha contribuído para baixar minhas guardas e a ocasião fora devidamente aproveitada pela mulher de olhos azuis e face francamente harmoniosa, parada de pé ao meu lado. Um olhar lânguido dirigido a mim, seguido por um sorriso meio matreiro em resposta, de minha parte, foram suficientes...

Ela aproximou-se com cautela estudada, cheirou-me a região do pescoço e enlaçou-me o corpo com delicadeza. Movi a cabeça para trás, tocando a dela, de leve, quase de brincadeira e virei-me de frente, devagar. Um segundo depois estávamos a nos olhar no fundo dos olhos, sem dizer nada, mas sentindo que era inevitável o que iria se seguir. O beijo foi morno, suave e sem pressa. Senti meu corpo reagir ao leve toque dos meus lábios nos dela, aumentando a pulsação e a temperatura da pele.

O apito intermitente e quase desesperado do forno, bem na hora em que minhas mãos puxavam o corpo miúdo, quase frágil, de encontro ao meu, interrompeu o curso dos acontecimentos e quebrou um pouco do encanto do ensejo. O jantar estava pronto. Nossos apetites confundiam-se com nossos desejos de outros sentidos, mas o aroma do queijo derretido, gratinado, venceu a batalha, que mal começara.

Mais tarde, sob o efeito desinibidor de mais de uma garrafa inteira de vinho tinto, ficamos abraçados a ouvir música, enrolados num cobertor sobre o sofá da sala. Não foi preciso muito para nos deixarmos levar, como em um barco à deriva, no balanço das ondas da sedução. A face delicada, os lábios rosados, os profundos e grandes olhos azuis, fixos nos meus e o corpo bem proporcionado, iniciaram um processo que não pode ser interrompido, antes de devidamente concluído.

Depois que a nau já estava ancorada em porto seguro, fechei os olhos e respirei fundo, sentindo-me satisfeito com o que tinha naquele momento. Com a cabeça recostada no meu peito e envolta pelos meus braços, a pequena mulher aconchegou-se, passou seu delicado braço pelo meu corpo e adormeceu em seguida. Eu deixara-me levar pela ocasião, impulsionado pelo néctar de Baco e pelo calor sensual do momento. Agora a leve embriaguez e a música suave a tocar, ainda, embalavam-me ao sono, num relaxamento confortavelmente profundo… afundando no sofá, como um corpo que cai no vazio.

Pouquíssimo tempo depois senti que minha face fora tocada por alguma coisa muito suave. Ao passar a mão sobre a pele, não distingui nada que me pudesse dar aquela sensação. Pensando haver adormecido e sonhado, fechei os olhos novamente, confortado e relaxado. Naquele momento eu quase acreditava que podia deixar a relação evoluir a um passo adiante. A mesma estranha e suave sensação a me roçar a face me perturbou, desta vez. Instintivamente passei a mão sobre o rosto, sem tocar em nada, além de minha própria pele.

Intrigado, abri os olhos e, quase por acaso, olhei para o espelho na parede. Sentada acima de nós, sobre o encosto do sofá, sorrindo provocadoramente para mim, havia uma mulher morena. Ela aproximou-se e beijou-me a face ligeiramente. Sua cabeça estava encoberta por um véu negro, muito fino e leve, quase transparente, deixando suficientemente à mostra todos os atributos de sua atraente beleza. Examinei o espaço à minha volta, para certificar-me do que vira, mas não havia nada. Pensei haver delirado. Ao olhar de volta para o espelho, entretanto, percebi que o enredo parecia ser outro, completamente diferente, onde eu a via novamente achegar-se e beijar-me a face, docemente, como se quisesse certificar-se que eu compreendia o que acontecia. A sensação era incrivelmente confortante, delicada, morna e, por incrível que pareça, muito bem-vinda.

A face semi-escondida pelo finíssimo véu negro pareceu-me encantadora, apesar de ter-me sido revelada apenas no reflexo do espelho na parede da sala. Ela então levantou a cobertura da cabeça, com um gesto sensualmente provocante, sem tirar os olhos de mim, revelando de maneira segura, sua face perfeita.

Era uma jovem mulher de lábios sensualmente carnudos e pele morena impecavelmente livre de quaisquer defeitos, com luzentes cabelos negros, lisos e presos em um coque à japonesa, no alto da cabeça, por duas hastes em forma de ‘chopsticks’ negros, decorados com uma delicada sequência abstracta de cores contrastantes, sobre os delgados palitos pintados de um cintilante esmalte escuro.

Desvencilhei-me, com cuidado, da mulher que ainda dormia. Levantei-me, ainda meio incrédulo, ante o surrealismo daquela situação e fui até o espelho, quase que numa espécie de transe, sem tirar os olhos do filme que via passar-se lá dentro.

A mulher morena levantou-se de onde estava e, sorrindo, veio em minha direcção. Ao se aproximar, encostou o corpo morno por trás de mim e passou os braços em volta do meu corpo, enquanto beijava-me o rosto novamente.

Ao meu ouvido, sussurrou:

- Gostas?

Eu suspirei, quase num esforço a resistir e gemi baixinho. Ela passou as delicadas mãos na região do meu peito, acarinhando-me sensualmente. Meu corpo reagiu momentaneamente… Um arrepio me desceu pela espinha. Ela deu uma risadinha e afastou-se um pouco.

Com os olhos ainda fixos no seu rosto perfeito, reflectido à minha frente, foi somente então que reconheci a mulher que havia visto de relance no espelho do elevador semanas atrás. Ela leu o reconhecimento em meus olhos e abriu um largo sorriso, com dentes perfeitos e brancos.

Vi que ela voltou ao sofá, calma e provocantemente. Pousou os olhos em mim, passou os braços em volta do pescoço da mulher que estava ainda deitada a dormitar, sufocando-a devagar e firmemente, fazendo-a engasgar, sentindo falta de ar e arregalando os olhos, sem compreender exactamente o que se passava.

Aflito com o que vi acontecendo, corri para tentar impedir que ela sucedesse em seu plano estranhamente mal-intencionado, mas não consegui tocar o corpo etéreo e invisível da mulher morena, agarrando o ar ao invés de qualquer presença física. Ela riu… uma gargalhada que começara quase normal, mas que inesperadamente tornou-se insana e quase histérica… e, então, falou pausadamente, para ser bem ouvida e deixar claro que tipo de intenções tinha.

- Tu és meu… só meu!!!

Uma sombra de apreensão estampou-se em meu rosto e eu gritei-lhe que parasse.

- Antes, prometa que vais ser só meu… Prometa!

Ela expunha um desequilíbrio que me preocupava, alternado com seu toque provocante de sedução. No tom estranho de sua voz, ela mostrava, além de uma certa demência, também o que era capaz de fazer. Eu via a vida de minha amiga por um fio ante meus olhos, agredida por uma algoz invisível e intocável, à qual eu tinha  que impedir,de alguma forma, que fosse além das medidas, antes que fosse tarde demais.

Olhando de volta ao espelho para tentar perceber a situação por completo, mesmo com muito pouco controlo sobre ela, cedi. 

- Ok. Eu prometo! Eu prometo, mas deixe-a em paz... pelo amor de Deus!

Ela percebeu uma certa impaciência, misturada com alguma preocupação, na minha forma de falar. Então, apertou um pouco mais, até que sentiu a mulher desfalecer e meu desespero manifestar-se em lágrimas de impotência ante aquela situação bizarra. Libertou, então, sua vítima e com seu corpo delgado e sua face extremamente bela, mas com uma expressão de puro e assumido deboche, aproximou-se de minha face e disse, baixinho, com a voz arrastada, mas suficientemente nítida:

- Tens que te convencer que tu és meu… de mais ninguém. Nunca te esqueças disso.

A mensagem havia sido absoluta e perigosamente directa e clara.

Chamei a emergência imediatamente. Quando os paramédicos chegaram, a pobre mulher já estava voltando a si, sem compreender o que havia acontecido. Não havia marcas em seu pescoço ou no corpo, para meu alívio. Aquilo parecia uma perigosa brincadeira em que eu me metera, às cegas.

Os exames preliminares não detectaram nada que pudesse ter ocasionado o desmaio. Diagnosticaram uma provável queda brusca de pressão e solicitaram observação, uma consulta ao especialista e uma bateria de exames. Ela me olhava incrédula, sem saber o que fazer e sem saber o que dizer.

Eu estava lívido, triste e quase desesperado, temendo que ela me fizesse alguma pergunta que eu não queria nem poderia responder. No reflexo do vidro da porta eu via a face morena, cujos olhos me vigiavam atentamente, fiscalizando meus movimentos e tudo que eu pudesse dizer ou fazer. Eu estava encurralado. Desviei o olhar, envergonhado.

- É melhor descansar. Eu te levo para casa. 



À noite, sozinho no quarto, senti algo tocar-me a pele. Acendi as luzes, mas não via nada. Meio desnorteado pelo cansaço e sono, eu me perguntei: sonhei ou estarei enlouquecendo?

Pelo espelho na parede via que minha opressora se sentava sobre meu corpo, tomando posse do que não era seu por direito e contorcendo-se de prazer, provocadora, ante meus olhos quase cépticos. Ela estava mais ousada, agindo como se tivesse obtido uma vitória. Eu tinha que reconhecer que seu corpo, coberto apenas pelo véu negro e transparente que agora trazia, era belíssimo e sensual – desejavelmente perfeito para os meus padrões. A voz era firme e atraentemente sensual, apresentando um matiz quase rouco e grave, sem ser, de forma alguma, masculinizada. Quase num sussurro, ela disse-me:

- Tu me tens. Não sou suficiente boa para ti? Por que necessitarias de outra? Eu posso te dar tudo o que quiseres… e até mais que isso.

Joguei a cabeça para trás e semi-cerrei os olhos, sentindo o movimento de seus quadris sobre os meus, devagar, ritmado, lascivo… Não resisti. Deixei-me levar lentamente, sem pressa, na volúpia do momento e no prazer que ela me proporcionava. Ela conhecia meus desejos e minhas necessidades físicas. Eu não podia negar que ela havia-me envolvido completamente.

Quando vi um flash de luz violeta iluminar o quarto, como por mágica, explodi em mim mesmo… com um brado abafado pela boca de minha amante. Se aquilo era um delírio, eu estava completamente envolvido na loucura.

O quarto pareceu escurecer repentinamente. Olhei à volta. Devo ter mesmo delirado ou sonhado. Não havia ninguém por perto. Meu corpo, todavia, ainda mostrava as evidências do que havia-me acontecido segundos atrás.

Olhei para o espelho. Sobre meu corpo havia outro, feminino, pálido, coberto com um véu negro. Ela levantou a cabeça, jogou os cabelos negros para trás com um movimento provocante, exibiu um sorriso zombeteiro e esquisito, quase num esgar, passou as unhas vagarosamente sobre o meu peito, levantou-se e deixou-me. Uma estranha sensação de ardência ficou latejando em minha pele. Exausto, cedi ao sono.


Ao acordar-me, já em hora adiantada na manhã, senti que precisava urgentemente de um banho. Ao entrar no banheiro, meu olhar foi atraído pela minha própria imagem reflectida no espelho e pude perceber claramente as profundas marcas vermelhas dos arranhões que ela deixara sobre meu corpo. Lavei-me e enxuguei-me com cautela, evitando piorar o estado dos ferimentos. Vesti a camisa com cuidado, depois de passar uma fina camada de pomada com anti-inflamatório sobre os arranhões. Ao sair, penso ter ouvido o que parecia ser uma risada, mas resolvi não dar atenção. Tinha certeza que havia imaginado aquilo.

- Acho que estou enlouquecendo mesmo, pensei.

Durante o dia não conseguia me concentrar no trabalho, especialmente quando involuntariamente o tecido da camisa roçava a pele tão recentemente ferida.

À noite, fui visitado por minha amiga, que veio ver-me em casa. Eu não me senti confortável, mas não quis levantar suspeita. Ela se aproximou e encostou-se no meu peito, na sua maneira carinhosa de saudar-me. Uma espécie de arrepio e uma retracção natural me percorreram a pele. Ela percebeu que minha respiração entrecortou por um breve momento e me perguntou o que havia de errado. Minha resposta não a convenceu, especialmente quando me tocou novamente e sentiu que eu fiquei tenso. Desconfiada, abriu-me rapidamente a camisa e olhou-me com um misto de surpresa e repulsa.

- Mas o quê…

Sem esperar mais resposta, esbofeteou-me com força e saiu porta afora, indignada. Eu não reagi. Não havia o que eu pudesse dizer que a convencesse a me olhar novamente, diante da evidência ostentada em meu corpo.

Fechei a porta, com um empurrão enfurecido. Por trás de mim ouvi o som de uma risada conhecida a fazer pouco caso de mim. Ela vencia a batalha, mas ainda não vencia a guerra.

Atravessei o corredor, sem tirar os olhos do chão. Evitei todos os possíveis reflexos em uma casa cheia de superfícies de vidro e espelhos distribuídos em vários aposentos. Não acendi nenhuma luz, enquanto me dirigia ao quarto.

Eu via somente duas alternativas: ceder ou enfrentá-la.

Era teimoso demais para ceder. Estava cansado demais para lutar.

Atirei-me na cama, profundamente irritado. Meu corpo todo doía, de tensão muscular.

domingo, 4 de novembro de 2012

Vitruvian Man



-          Joe, do you know the song?

-          I don’t think so, my friend, said I, while very quickly searched the net to find a live piano version, which I immediately put on to play and to my own surprise I got so emotional I just started crying.

-          Are you playing our song, my dear man?

-          Yes, Thomas. I am.

We listened to it in silence, until the end of the tune and then he asked me:

-          Did you like it?

I said:

-          No, my friend, I did not like it… I loved it.

-        It is my gift to you, dear Joe. Remember me whenever and wherever you listen to it. Every word in it is exactly what I feel about you…

The track, “The first time ever I saw your face”, played and sung by Roberta Flack, supposedly expressed his emotions and the impressions he felt when we met first time. He used to say he liked my company and could not resist playing his seduction game with me. For all that matters, Thomas thought I was an attractive man, a statement that no one else had ever made when referring to my person before.

I have to confess I kept on listening to that song for a longer than expected time…

The situation was as simple as that. Thomas was the man who made me see myself in a completely different way, for the first time in my life. I was absolutely grateful for the way he introduced me to a new vision of my own self. He was responsible for the awakening of a fiend I never knew existed inside my soul: the appreciation of my physique – an exercise of sheer vanity.

We had a very close relationship – a very intense affair that lasted no longer than a very short time. One day, out of the blue, Thomas told me he was feeling a deep pain in his chest and had to see a doctor. By the end of the day, he was staying in the hospital for a few nights, for some tests the physicians wanted to perform. I got worried, but there was nothing I could do to help.

I still tried to keep contact, but all I had in return was silence. Not a single word, nor news or a single response to my contact attempts.

After some wordless weeks and some more frustrated tries to get in contact with him, I received a very strange message informing me he had died in hospital. For some odd motive he decided to disappear from my life for a second and decisive time. I did not know what to think of that. I was caught in surprise in the middle of a business trip and did not know how to react. The feeling I had flourished for such a short time transformed into a tiny dried seed buried underneath a cold pile of winter snow covering my already torn soul.

Deep inside I knew I had to live my life without him. I was determined not to question the circumstances anymore. In just a few weeks I had grown stronger and harder at the same time. My heart, however, was irretrievably and disappointingly torn apart.

Understanding people is always a very difficult task to me. The whole story did not make much sense, but I was forced to accept it. For good or for bad, he was definitely dead for me… or so he decided to be and I, from my part, decided to let him go off of my life for once and for good.

He had played his part and had woken up a feeling I had not ever had before in my life, but his role in that play was sorrowfully and definitely over.

The song still kept on sadly playing over and over for months, while the grip of my memories of him was going from too tight for me to let it go to an easy but bitter acceptance of an uncontrollable status quo assumed by the passing of the days. Holding on to a recent past and to the man who made me see myself in a different way was gradually turning into a pale, stingy and painful reminiscence slowly healing in my chest, but not without leaving its mark deeply printed in my soul.

But what sort of man does not bear his own scars painfully carved in his life anyway?

I sometimes wondered if he, for some eccentric intent, played with my heart and took some kind of revenge for something totally unknown to me. I mourned for too long and before all my grieving was over, however, life would dare me to be strong again. 

A very few inconsequential mistaken tries followed the subsequent months and to my surprise, I grew too tired of those as well. I am a man who needs some emotional depth and those shallow encounters were not satisfying enough to make my days a bit brighter or at least less lonely. I decided I should stay away from trouble and be quietly alone for the time being.

But life has some funny ways of catching me by surprise and that time was no different.  A kind of another occasional meeting would prove me wrong. 

                                                                                  ***

Brandon was sitting alone with his legs relaxingly crossed, apparently waiting for someone to come. The shirt, unbuttoned on top, letting a portion of hairy chest to sight, was in a pattern of white, blue and red plaid. I could not see his eyes, as the light was intentionally directed otherwise, but I noticed he smiled slightly when I approached him. It was his territory and he felt comfortable in it.

The conversation went on carefully at the beginning, when we tried to fumble through unfamiliar ground, analyzing the way our own words were chosen as if we were patiently fishing from a mutual awareness pond we were circling around. For some weird but amazing reason, it then turned out to be quite easy to find a connection between us a very short time afterwards.

In trying to know and understand each other’s preferences, we found out many similarities either in tastes or the way we liked being teased around. I told him I liked being touched, tasted, smelled, kissed, hugged...

He then called me a sensualist.  It was his first attempt to catch me. He would use that specific word many times after that occasion...

Time flew away so fast without our noticing it. I found it very easy to be comfortable with him and the game he played was a banter novelty to me. I had to recognize he was a very good player.

From my part, I did not analyze the good looks, the shape or the appearance, once I was attracted by the strongest sex appeal to me: his wits. Later on we would laugh about this statement of mine...

                                                                                 ***

The large living room was enlightened with the afternoon sun being filtered through the almost transparent curtain. The music playing had the intention of filling up the gaps between one phrase and the other of our meek attempts of conversation. We were in my comfort terrain that time, but still groping clumsy into intimacy. He sat at my side and seemed a bit uneasy at first. Fortunately Ginger was staring at us and that gave us time to evaluate each other by playing with the purring attention catcher sitting on the carpet by the couch we were on.

A moment of silence brought his eyes to mine and he touched my ear, in a sort of intimate way. I turned a bit around to face him. It was obvious we were both waiting for a chance like that and the opportunity was immediately seized.

Not a full second later we were kissing each other, carefully but tenderly tasting the lips of one another. My legs were still shaking, as were his. He then moved his hands on my back, searching for an opening between the shirt and the still belted jeans. His touch was warm and soft on my bare skin and it felt really good, to say the truth. My body reacted immediately and I have to confess now I felt his response grow quicker and harder than mine.

He played his game with skilled mastery, savouring and testing my senses and my acceptance to his contact, finally leading me to a state of an almost induced trance that culminated with an explosion of welcome pleasure – for both of us, as far as I could noticed.

Silence followed the moment as a taunt in the almost gloomy bedroom.  Lying on my back I closed my eyes as I felt the soft touch of his small, delicate hands over my skin, tenderly caressing my torso.

-          Are you ok?  His voice was an almost inaudible whisper.

-          I am, indeed, more than ok.

I rolled over and kissed his head, his eyes, his face and his lips. His arms clasped warmly around my nude body and held me tightly against his for a long moment. We did not need to say anything else...

                                                                                  ***

My body swayed to the cadence of the music while my arms held his chest closer to mine. The rhythm was compelling and inviting. He let the slight swinging movement of my body and legs lead him slowly and entirely into it, while the somewhat high-pitched male voice filled the living room with the repeating chorus line singing “all I wanna say is that they don’t really care about us”...*
*(Michael Jackson’s “They don’t care about us”).

When the music was over, he said he loved that song. From that moment on it was “our song” and whenever it played it had a remarkable effect on us.

I thought to myself: funny how simple things had a great importance when placed in the right context, at the right time...

A late phone call that day would complete the scene. He told me he had been thinking about the happenings of the day on his way back home and while still smelling the scent of my cologne on his skin, he asked himself: “what is this 'Greek God' doing to me? What does he want from me?”

A loud laugh was my response to his obviously silly remark. “What an exaggeration”, said I, feeling all special and full of myself for the second time in my life. Deep inside I was sure he had gotten me but I did not express my thoughts that loudly.

He laughed back at my response, as if in disbelief... He had no idea of how sweet it was to hear that and how hard it was to accept it, when all my life I was led to think the opposite about myself.

Sometimes his laugh was just a defence to a certain insecurity he felt and to compensate a low self-esteem he occasionally had, consequence of his distressing past at school, when he was a chubby boy, bullied by his so-called “normal” colleagues, as generally happens to school kids on top of their cruelty.

After all, we were so alike, thought I. Silly insecurities have filled our lives in for too long.

That lack of confidence still used to come out every now and then, especially when he was alone and thinking about his life and his relationship with me. He used to say his thoughts were then like a ball of wool entangled in his head.

                                                                                  ***

I was lying lazily on the couch listening to Ginger’s relaxing purring close to my ears when the telephone rang. The cat, which was almost asleep on top of my chest, jumped off but stayed close, looking at me quite awkwardly. He immediately recognized my friendly way of talking and leaped back to the couch, lying comfortably on my chest and looking into my eyes, as he used to do when was at ease with me.

-          There is a very good cook in the neighbouring area where you live.

-          Ah... is it? You have to take me there one day.

-          Maybe I will, if you behave nicely...

And he laughed loudly. His laugh was spontaneously attractive to me. He was in a good mood.

-          Will you come and dine with me? Maybe I try to cook something and if it is not ok, then we still can go to the “good cook” you know around here.

I was just teasing him, obviously, as I knew he was telling one of the private jokes he used to say when we were together. My mind wondered back in time as I reminded the first day I cooked dinner for the two of us.

He was standing in the kitchen, watching my movements closely with sheer attention, while I was dealing with the onion and garlic frying in the pan and still slicing the red chilli pepper and some cherry tomatoes to add into the sauce. Some spices, a pinch of fine herbs and salt and the appealing smell started getting into our nostrils. I wanted to use a simple recipe supposed to be quick but not for any instance far from good to the palate. He served some red wine to both of us in large crystal glasses and we toasted, smiling to another private joke. A toast without a taste was never supposed to be allowed between the two of us.

I finalized adding up a handful of fresh mushrooms and some prawns into the sauce, let the concoction simmer and then added the rice already spiced with some herbs. Two cups of water and then let it cook for some minutes for the risotto to be ready and then we could sit down by the small kitchen table and appreciate it slowly and peacefully.  The real world was definitely left outside...

He looked at me with both attention and affection and mentioned he was surprised by the speed I dealt with the cooking. That made me smile satisfied. Luckily the taste of my simple cooking creation was very good and he truly enjoyed it. I noticed it when he took a second portion as fine as the first one, saying he could not resist it.

A simple dessert prepared with papaya and ice cream, aromatized with a spoon of Greek yoghurt, followed by a strong espresso with a small piece of dark chocolate and dinner was over. All our more than five senses were tested during the time we were in the kitchen.

While I was laying the dirty dishes into the sink, he, in a natural gesture, hugged me affectionately from behind, kissing my neck lightly. I moaned quietly, turned around, kissed the top of his head flippantly and went to the living room with him.

I wanted to take that opportunity and show him a sketch I was working on. It was a sepia study of my torso - very light, with the delicate amber colour of the lines and shades almost fading into the white textured paper.

He said he particularly liked it, then stopped for a while, as if thinking about how to put in right words what he wanted to say next and looked back at me with a funny expression stamped on his face.

-          You are a true man of the Renascence.

-          Why so?

-          Besides other things you do, you can draw, cook and still amaze me with something else like a genuine man of the Renascence. And you still can put your ideas and stories in writing. You know I am not good with words and sometimes I am even afraid of them...

-          A Vitruvian Man?

He giggled loudly and nodded.

-          Yes, an authentic Vitruvian man!

At that moment another code had just been created between us: the Vitruvius Man! He would use it in any opportunity he could, making the two of us laugh at the expression, remembering that occasion.

That night he loved me like no one else had ever done before. He tasted and touched me slowly and tenderly, quietly and carefully, as if studying the reactions of my body to his gentle contact and caresses. I learned how to be touched by him and how to let myself go when touched by his skilled hands. The dim light of the bedroom was witness of the lustful game he played deftly and intensely on my pale body.

In addition to what I received gracefully, I taught him how to let himself be touched by me as well. It was a trade of senses that made the two of us feel like sailing ships drifting along through sometimes still sometimes stormy and wavy waters.

I was lying prone in the large bed, with my eyes intentionally closed and still enjoying the warm touch of his fingertips going from my neck down to my buttocks, where he softly played around and asked me:

-          Joe?

-          Yes, Brandon...

-          Did I say how much I like your body?

His voice was nearly a murmur. I moaned languidly and said:

-          No, not yet.

He came closer to my ears and whispered, as softly as he could:

-          I do. I really do.

This man had undoubtedly initiated me into a world of pleasures I was not used to and that was utterly new to me. He had no idea how good it was to listen to his compliments and how satisfying it was receiving so much attention. That small seed buried underneath the cold snow was slowly blooming again out of my scarred but healed soul.

How could I avoid being thankful or even like him any less for what he was doing to me?

-    Brandon?

-   Yes, Joe...

-   How can I give you more pleasure? 

- Moooooore???!!!??? Is it possible to have more than this, my dear?

I have to admit the obvious: he had caught me... definitely...

                                                                                 ***

Six months after our first encounter, following a naturally growing intimacy process, we were seeing each other every single week, at least once and talking on the phone or “on-line” on a daily basis. Barriers had melted down and away. We were closer than ever. 

His thoughts were expressed in a short, but intense electronic message, where he stated he sometimes caught himself thinking about us and the time we spent together, feeling the complicity and serenity of the moments we filled with laughter and sensuality.

Somehow I felt special every time I noticed a progress in our relationship. An unexpected message in the middle of the day; a phone call telling me he was coming over to spend the whole day Saturday with me; a whisper in my ear saying he missed me; these little things seemed like an immense step forward to what we had in the beginning and to promises we had never made.

At the end of the day we were both sensualists, teasers of a kind, addicted to the presence of each other and with a lot of very good memories to keep.

                                                                              ***

The familiar beep of the cellphone announcing an incoming message was heard loudly from where I was. It was almost late in the evening and I had a vague idea of who it was from. When I picked the small gadget up and pushed the button to open and read the received note, I saw the word “kisses” written repeatedly twenty-three times in the single funny text message.

-          What happened to you? Have you gone crazy? , went the message I sent back.

-          I have gone crazy... yes... for you... That was his quick response...

I felt involved in a situation that was already history and to which I did not have a single moment to regret about. I smiled at myself and sent him another text.

-          When are you coming to see me again, my dear friend? I’ve been missing you quite a lot...

The telephone rang almost immediately after the text message was sent.

-          I was thinking of coming later tonight and staying over. I want to sleep very close to you; embracing you all night long...

His voice was almost a plea. I smiled to myself and said, very seriously:

-          I will love if you stay over, my dear friend. I really will...

                                                                            
                                                                             ***